PASSO DO LONTRA PARQUE HOTEL II.
15/09/2018 SÁBADO.
O mês de setembro foi escolhido, pois em nossa viagem anterior em 16 de abril de 2018, o Pantanal estava muito cheio, maravilhoso como nunca, o que nos propiciou pescarias de peixes de escamas em abundância (Piavuçu, dourado, piracanjuba, piapara…). Lógico que somos praticantes da “pesca e solta”.
A viagem foi tranquila, o roteiro foi o mesmo da viagem anterior destino no Pantanal: Passo do Lontra Parque Hotel. Esta é a saída de Ribeirão Preto, os tratores preparando a terra para o plantio da importante cana de açúcar.
Já devíamos estar cansados de passarmos pelo Rio Tietê, nesta represa de Ibitinga, mas sempre que passamos, sabemos que temos pela frente uma grande aventura, por este motivo sempre colocamos umas fotos do lugar, chamado em princípio de Porto Ferrão.
Depois desta passagem, nossa meta era chegar em Mato Grosso do Sul.
CHEGANDO EM MATO GROSSO DO SUL.
Depois de 330km, percorridos pela rodovia Washington Luiz, na maior tranquilidade, chegamos a divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul, estamos sobre a ponte do Rio Paraná a jusante da UHE de Jupiá.
Any estava guiando quase todo o trajeto, mais de 350 Km, firme no volante. A estrada estava rendendo muito. Enquanto ela guiava tirei uma bela soneca, entre Araçatuba e Castilho. Entramos em Mato Grosso, o tempo estava ótimo, sol e altas nuvens no céu azul.
Em Três Lagoas a Any resolveu conhecer a loja da Havan por sinal uma magnífica loja de departamentos. É o progresso!
Estávamos no Vale do Rio Paraná, o tempo aberto, apenas altos cirros ungulatos riscavam os céus com suas correntes de jato, rodopiando a 10.000m de altitude.
Foto do Google.
Este tipo de nuvens cirrus, que segundo os pilotos são semelhantes a um rabo de cavalo correndo, significam que lá pelos 10.000m de altitude tem ventos, no sentido do fluxo de mais de 400Km/h, no caso, sentido Sul. E isso ignificava, que certamente, daí a pouco tempo as condições climáticas irão mudar realmente. Como realmente aconteceu!
Saímos de Três Lagoas, eram 15:00h. Depois de 50 Km lá estava, uma imensa camada de “stratos congestos”, que cobria toda a região, o tempo havia mudado completamente. As nuvens deste estrado iniciavam quase na altura do planalto onde estávamos, isso é a uns 800m de altitude. Sabíamos que isto era o começo, pois até a cidade de Água Clara, a chuva ficou muito mais forte, tivemos que tomar muito cuidado, a estrada nestes 140Km não era nada conservada e tinha muito movimento de caminhões. Grandes caminhões, muitos treminhões, correndo no asfalto, cheio de pequenas crateras, levantavam uma imensa nuvem de cerração, impossibilitando qualquer ultrapassagem segura.
Sempre achei fascinante a natureza, em cada lugar uma imagem, em cada canto um bioma diferente. Este caleidoscópio da natureza, é que a torna tão rica e extraordinariamente belo o trajeto de nossas viagens. Importante é saber olhar e admirar. Nas margens da estrada um cerrado de árvores retorcidas, depois das cercas uma plantação de eucaliptos que se perdiam nas distâncias de nossas vistas.
Este rio passa por uma área muito importante desde sua nascente. Um planalto ondulado, com o predomínio da vegetação de cerrado alto e cerrado baixo. A partir da década de 60, estas áreas foram desmatadas, para a plantação da histórica braquiária. Uma gramínea vinda da África que modificou toda a pecuária brasileira. Estas terras não são muito férteis, para o plantio do famoso colonião, o rei das engordas de bois de toda pecuária, a pasto.
Contudo, o desmatamento do cerrado, possibilitou com sucesso a formação de extensas e ótimas pastagem em todo vale do Rio Pombo. Com o desmatamento, as árvores de toda esta imensa região, fez nascer os produtores de carvão. Os carvoeiros. Derrubavam o cerradão para o fazendeiro, em troca, usavam a madeira para fazer o carvão. Retribuíam também lançando as sementes da braquiária, que após o fogo da ramagem, brotava exuberante esta rústica gramínea. Visitei algumas áreas de atuação dos carvoeiros. Eram grandes fornos feitos de barro, dezenas deles, empilhavam a lenha das derrubadas, dentro do forno, eram bem vedados, e ponham fogo. Como não havia oxigênio, a queima era parcial dando origem ao carvão vegetal. Imensos caminhões saiam da região com altas cargas de sacos de carvão, para levar para as indústrias do ferro, principalmente em Minas Gerais. Desta atividade, aparece uma figura típica: o carvoeiro. Sempre sujo do pó negro do carvão, parecia até um ser de outro plante, eles eram uns fortes, pois a rotina não tinha fim. A alimentação precária, por isso tornaram caçadores, e todos animais que podiam matar servia de alimento para eles. Assim, onde os carvoeiros atuavam, pouco se achava da fauna da área de desmatamento.
Na alimentação eles não eram exigentes. Gostavam muito da carne saborosa do cateto ou porco do mato. Mas a mais saborosa segundo eles era a paca. A capivara dava trabalho para ser preparada, mas ficava boa também. Soube de antas que foram abatidas pelos carvoeiros. Na hora da fome nem os macacos bugios escapavam das famosas balas calibre 22mm. Sem falar nas perdizes, macucos, mutuns e seriemas. Os animais que escapavam do abate, eram pegos pelo fogo da limpeza da derrubada e o mais triste de tudo, era a perda completa de seus habitas. É a tragédia da atualidade.
Até hoje o Brasil vive este terrível drama, o Progresso X Ecologia. Na região centro sul tudo já foi derrubado, restando apenas algumas reservas. Para o futuro temos que ver o que farão com a imensa região Amazônica!
Imagens do Google.
Imagens comuns em décadas passadas, o “homem Carvoeiro”, os fornos de carvão. No tempo era sinal de conquista, progresso?
Este mapa do Google, mostra do espaço, a região que me refiro e conheci.
Ao passar por este lugar, tantas lembranças vieram à minha mente, passar de caminhonete, nas estradas de terra e barro. Quantas matas, animais e pássaros. Ao sobrevoar de avião quanto verde, rio limpos, um tapete contínuo do cerradão. Lembranças que se perdem na poeira do tempo.
Vamos esquecer o passado. Olhando para frente, uma reta de 25 km, antes da curva para a cidade de Água Clara. À nossa frente não muito distante, 10 Km, no máximo, um imenso cúmulo nimbos, havia se formado. Toda a natureza se agitava pela sua força incrível, as árvores se agitavam, os pássaros firmavam as garras em seus galhos. As plantações de eucaliptos se perdiam nas distâncias, felizes pelas águas que cairiam abundantes do céu. É a natureza com sua magnificência divina se mostrando em espaços infindos.
Chegamos debaixo do CB. A chuva começava a cair, havíamos andado 156 Km de Três Lagoas. A grande nuvem negra rodava no espaço, no sentido dos ponteiros do relógio, ao longe a mancha clara no céu mostrava o fim da célula meteorológica.
CHEGAMOS A CIDADE DE ÁGUA CLARA.
Paramos em um belíssimo posto, para um lanche, antes de seguimos nosso deliciosa viagem.
Depois da cidade e saciado pedi a minha mulher que tocasse para eu dormir um pouco, mas antes uma self de minha alegria, por estar indo pescar. Bom demais, meu Deus, obrigado.
De Agua Clara para Ribas do Rio Pardo, a estrada estava bem melhor, o asfalto havia sido refeito. As grandes retas no terreno plano, dilui muito o trânsito, pois as velocidades são aumentadas, tornando os espaços muito maiores e mais seguros.
O que observamos neste ponto, é que começaram a aparecer os pés de ipês amarelos, depois uma infinidade deles, conforme veremos.
“FÉ EM DEUS E PÉ NA TÁBUA” – Era uma frase predileta do falecido governador de São Paulo, quando queria correr e fazer grandes viagens.
Eu a disse para Any, pode tocar pois agora temos muito chão para andar até o poso em Anastácio. E assim foi graças a Deus, a viagem transcorreu normalmente, sem nenhum intercurso.
Não passamos dentro de Campo Grande, contornamos a cidade, não sei se vale a pena, pois o trajeto também é longo. É como disse um pantaneiro em Porto Jofre: É PAULADA POR BORDUADA.
Mas continuamos a viajar tranquilamente e com ânimo. O trânsito era intenso, mas a vontade de chegar ao destino, com toda segurança, era muito maior ainda.
Senti uma emoção muito grande ao chegar na cidade de Miranda, é meu ponto de referência para a entrada no Pantanal. A entrada da cidade dia a dia tem melhorado mais, está muito bem cuidada.
Resolvemos ir ao centro da cidade, ver onde o trem passa, os trilhos ficam bem a baixo da avenida, não dá para ver mais, o trem perdeu a importância para o lugar, é incrível e triste. O trem hoje somente funciona para carregar carga, geralmente minério e combustível.
Deste ponto saímos da cidade, e entramos no Pantanal propriamente dito.
A estrada depois de Miranda estava muito boa, asfalto novo. Antes da ponte do Rio Miranda, já podíamos observar que o pantanal estava secando. Todas águas nas margens da estrada tinham secado. As árvores sem folhas, algumas com um pouco de flores da florada que terminara.
Chegando na ponte do Rio Miranda. Um lugar de muitas recordações do passado. Logo depois da ponte tem um lugarzinho chamado de Salobra, em virtude do Rio Salobra que desemboca a montante da ponte do Miranda.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O RIO SALOBRA:
O Rio nasce na Serra da Bodoquena, e é um dos mais importantes afluentes do Rio Miranda. Por nascer em uma serra, que é um dos maiores depósitos de calcário do Brasil, suas águas são ricas em calcário, e por percorrer terrenos cujo sub-solo é de origem caucárea, a coloração de suas águas é parda, leitosa e esverdeada. Atingindo a planície, suas águas filtram-se nos aguapés dos corixos e baías, tornando-se quase cristalinas, podendo-se contemplar cardumes de peixes. Na sua parte baixa, o rio Salobra representa o típico rio pantaneiro. Serpenteia ao longo da planície entre capões de matas galerias, corixos e baías povoadas de aguapés, assumindo características semelhantes às dos rios Abobral, Vermelho e Negro.
Nesta imagem do Google Earth, dá verificarmos: Aponte da rodovia cruzando o rio, e o Rio Salobra desembocando na margem esquerda do Rio Miranda.
Muitas vezes passei de barco, saindo da cidade de Miranda, por esta área do rio. Da cidade até este ponto gasta-se duas horas e meia, com o motor de 25HP, como ele anda a 30 Km/h, estima-se pelo rio, navega-se mais de 60 Km, devido aos liames que o rio faz neste trecho. Pela rodovia, da cidade até esta ponte tem no máximo 25 Km.
Passávamos por aí, nos tempos passados, anos 1995 a 1999, para irmos pescar no Hotel Flutuante, que ficava na foz do rio Aquidauana com o Miranda. A distância de navegação desta ponte até lá é de 185 Km. Existem numerosas histórias desta viagem. Uma turma de Ribeirão Preto, sofreu um acidente 30 Km antes do Hotel Flutuante, se não fosse a ação do Narciso piloteiro, dois pescadores teriam morrido.
Outros pescadores, na viagem de Miranda para o Flutuante, ficaram sem combustível, tiveram que dormir no barco, ouvindo esturro de onça e passando fome e frio.
Um dia pegamos um temporal na viagem tivemos que esperar horas para voltarmos a navegação. Em duas ocasiões encontramos onças, uma atravessando o rio, e outra no barranco. Sucuris nos barrancos vimos duas ou três vezes. Sendo que uma delas foi a maior eu já vi. (A fotografia dela está na internet em minha página na internet: viagensdrsergiolima.com.br/viagens ).
Estamos sobre a ponte do Miranda. A imagem mostra que o rio está com as águas bem baixas, lugares de aventuras passadas. Desta ponte 180 Km chega-se ao desague do Rio Aquidauana, onde hoje existe um posto do IBAMA. Antes era o Hotel Flutuante.
Depois de 30 Km do Salobra encontramos esta víbora morta.
Uns 30 Km depois da ponte encotramos esta cobra, jaracuçu, ou sucucucu, não sei ao certo, atropelada, muito recentemente. Paramos para a fotografia, mas o gavião cara-cara não gostou, veio bravo, achou que íamos roubar seu belo almoço.
Any, não se conteve, quis abrir a boca da serpente. Com um pedaço de pau abriu a boca da víbora, incrível, mas o dente, mesmo escondido pela mucosa esfacelada, grudou firmemente na madeira. Faço ideia, de uma presa que for pega por estes dentes, não escapa em nenhuma hipótese. É morte certa!
Depois de uma visão desta, em uma pequena faixa da estrada fiquei imaginando como seria biologia, o equilíbrio ecológico em todo este imenso pantanal. Atrás das árvores, nos infindáveis alagados, nos cerrados altos e baixos, muitos biomas diferentes. Provavelmente em cada um uma vida, em cada vida um equilíbrio, uma necessidade biológica, realmente é uma região de riqueza incalculável.
Continuamos cortando o Pantanal, com muita calma, pois a possibilidade de atropelar um animal é grande. Ficamos olhando atentamente, por todos os cantos, mas desta vez nenhum animal vimos.
Este é um lugar que desde 1955 eu ouço falar muito. Aqui iniciava a imensa fazenda BODOQUENA, que era do arquimilionário NELSON ROCKFELLER. Não tinha estradas, as envernadas eram tão longas e cheias de bois, que o abastecimento de sal para os bois, era feito diariamente por um avião, C-172, da Cessna.
Hoje isso acontece na Austrália, o sal ´elevado de helicóptero, e os boiadeiros, substituíram o cavalo pela moto ou pelo quadricíclo.
Histórico: Anualmente 7 alunos da Faculdade de Agronomia Luiz de /Queiros – USP- PIRACICABA; eram selecionados para passarem 15 dias na grande fazenda, para aprenderem a manusearem a cria e a engorda dos 50.000 bois de pasto, da fazenda, alimentados somente com sal mineral e o glorioso capim colonião.
Este capim impulsionou toda a engorda dos bois nas terras férteis e virgens de todo Centro Oeste do Brasil. Era o ouro verde da pecuária. Até hoje, as novas fronteiras da pecuária, se apoiam nas terras novas, de florestas derrubadas da Amazônia.
A estrada de Ferro Noroeste do Brasil, tinha 3 estações de trem dentro do perímetro da fazenda BODOQUENA. Os bois gordos iam para o mercado de São Paulo, sempre embarcados em trens boiadeiros.
Os alunos do último ano da ESALQ, estudavam e lutavam para participar deste estágio. Saiam de Bauru de trem, depois de viajarem 24 horas, em vagões leitos, chegavam na fazenda. E, cada um aluno, uma vez por dia saia com o piloto de avião, para dar sal mineral para o gado.
Hoje a maior parte destas terras passaram a pertencer a fundação Bradesco. Lá tem escola, cirurgião-dentista, médicos e professores. É praticamente uma vila, muito bem estruturada.
Boas-vindas ao PASSO DO LONTRA.
Este tuiuiú nos deu boas vindas, logo na chegada da ponte do Rio Miranda. Saiu por trás das árvores e se expos, majestoso como a ave símbolo do Pantanal.
É a segunda vez que passo por esta ponte, e sempre me surpreendo pela excelente obra que foi realizada neste lugar.
O rio estava com suas águas pardas, devido a uma chuva que havia caído dias antes no seu afluente o Rio Aquidauana. Estava baixo, isto é, correndo dentro da caixa. Segundo meus conhecimentos, situação própria para a rodada de peixes de couro: pintados, cacharas e jaus. A esperança do pescador é sempre positiva.
Na trilha da chegada ao Hotel Passo do Lontra Parque Hotel.
A Base de Estudos do Pantanal (BEP) está localizada na margem direita do Rio Miranda, na região denominada “Passo do Lontra” (entre os pantanais do Miranda e Abobral), no município de Corumbá – MS. Ela situa-se 3Km a montante do hotel que ficamos.
Apresenta a seguinte infraestrutura: alojamentos, cozinha, refeitório, despensa; sala de reuniões, anfiteatro, internet; energia elétrica rural, Laboratório de Biologia Geral, Laboratório de Recursos Pesqueiros; Laboratório de Geoprocessamento, Laboratório de Informática; ambulatório médico/odontológico e laboratorial para atendimento da população local; água potável (poço tubular); sistema de coleta e tratamento de esgoto; três veículos; sete embarcações. Uma torre de observação (20m de altura).
Esta fotografia é de um trabalho realizado por esta base de estudos. Mostra uma onça pintada, que abateu um boi. O trabalho dos pesquisadores é manter um equilíbrio ecológico entre os fazendeiros e os felinos. Estão atualmente colocando rastreadores nas onças, para segui-las, ajudando a ecologia da área pantaneira.
Estrada da saudade de tempos passados. Era totalmente de terra, lama, buracos e passagens na água. Quando o pantanal estava cheio, ela era intransitável. Lá ao fundo o Morro do Azeite. Via-se muitos peixes nas vazantes que formavam nos corixos. Passar pela estrada era irmos conhecendo o Pantanal. Melhor deixarmos o passado para trás.
Nesta época não transitava caminhões por estas estradas, todas mercadorias que iam para Corumbá, eram transportadas pela estrada de ferro Noroeste do Brasil.
ESTA É A SEDE DO COMPLEXO PANTANAL JUNGLE LODGE.
Este hotel no pantanal, foi o primeiro hotel na região do Passo do Lontra e em 2015 foi adquirido pelo proprietário do Lontra Pantanal Hotel localizado na mesma região do Passo do Lontra. A ideia do novo proprietário foi deixar o Lontra Pantanal Hotel apenas para atender o público totalmente voltado para o Ecoturismo no Pantanal. A ideia foi um sucesso, incluindo a vinda de muitos turistas estrangeiros.
CHEGANDO AO PASSO DO LONTRA PARQUE HOTEL.
Depois de 1.180Km de estrada, entrar no estreito caminho para o destino tão esperado é sempre uma alegria para a alma do viajante.
Na árvore do estacionamento, um tucano sorrateiro nos observava atento. No pátio do estacionamento um gavião caracará, tomava um “banho” de areia. O canto de dezenas de aves era música esperada para meus ouvidos saudosos. Como podemos ver fomos recebidos em paz pelas aves.
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Incrível mesmo, logo que subimos no chalé do hotel, a nossa frente, sem se preocuparem com nossa presença, duas jacutingas, comiam as frutas de um pé de jenipapo tranquilamente. Sempre soube que estas raras aves, são muito ariscas, pois foram caçadas por muito tempo. Segundo, nunca imaginei vê-las tão à vontade se alimentando tão perto. Esta imagem, a guardarei para sempre, pela sua importância ecológica. Acredito ser possível recuperar nossa ecologia do pantanal.
A noitinha, o Lucas, o pirangueiro, chegou. Estava um pouco reticente com a pescaria, pois durante seu dia de pesca, com outro turista, apenas pegou uma pequena cachara.
Não ligamos muito eu e minha mulher a Any, pois gostamos da natureza, e o passeio pelos rios já é um grande prazer para nós.
Preparamos nosso material de pesca, trocamos todas as linhas das carretilhas. Colocamos linha Trillon, número 45, pois acreditávamos que seria mais que suficiente. Assim nos preparamos para o dia seguinte.
O jantar no hotel sempre é muito variado, assim nos alimentamos bem, pois naquele dia não havíamos almoçado, apenas lanche e pé na estrada.
Para fazer a digestão, pegamos as lanternas potentes, e fomos caminhar pelos caminhos elevados do hotel, que seguem entre as árvores e alguns alagados que restaram da enchente, vimos muitos aracuãs empoleirados, uma árvore repleta de biguás, um bando de bugios, dormindo em um alto pé de ipê.
16/09/2018 DOMINGO.
Depois do maravilhoso café da manhã, arranjamos nossos pertences para sairmos para pescaria & passeio pelo Rio Miranda. A traia de pesca já estava no barco, levado e arranjado pelo pirangueiro.
Desta vez ficamos hospedados em um apartamento no segundo andar do conjunto. A fotografia mostra que toda água que havia nesta área em abril, já escoou para o rio, é o período da vazante
Havia muitos pescadores nos hotéis do Passo do Lontra, assim por sugestão do mestre pescador, resolvemos descer o Rio Miranda, pois a maioria havia subido o rio, onde os pontos de pesca são mais próximos, e a maioria gosta de voltar ao hotel para almoçar.
Na saída para pescaria os aracuãs vieram despedir de nós.
Descendo o rio os pontos de pesca são bem mais longe, assim levamos lanche para somente voltarmos a noite.
Este é o Complexo Pantanal Jungle Lodge, visto do meio do rio Miranda 4 Km a baixo do hotel que estávamos. Este lugar tem toda a história da região, foi difundido na década de 1970 pelo senhor ASA, esteve até em Ribeirão Preto, a convite do americano Mr. Bliz, agente de viagem (USA), para difundir as belezas, a fartura de peixes do rio, entre outros atrativos, de seu hotel, com apartamentos feito sobre palafitas sobre as áreas alagadas da região.
Sua semente plantada teve grande efeito, hoje neste hotel, hospeda pessoas de todas partes do mundo, para verem, e fotografarem o Pantanal. A pescaria é super vigiada, os peixes estão aumentados assim com os animais, mesmo onças e o cervo do pantanal.
Um 1Km abaixo do Lodge está o grande e majestoso rancho do pessoal de Araçatuba, incluindo no grupo um primo meu Augustão. Fui muitas vezes hóspede deste primo, e pescávamos juntos, ele é grande pescador, quando pegava um bom peixe gritava: “ Não vem não pica-pau, aqui é aroeira”.
Uns 20 Km rio a baixo, encontramos um bom lugar para a rodada. Havia um belo pé de novato florido, bem no início do lugar onde iríamos começar a pesca.
Pouco abaixo, no início da rodada estes dois jacarés se agitaram com nossa passagem. A quantidade de jacarés hoje no Pantanal é imensa, pois os coreiros deixaram há muito tempo de existirem. E o jacaré tem pouquíssimos inimigos naturais.
Quilômetros mais a baixo, presenciamos este jacaré, que acabara de abocanhar um belo curimbatá e depois de duas trituradas lá foi o peixe para o papo do caçador meticuloso e calmo. Este foi um dos maiores jacarés que eu tive oportunidade de ver nesta viagem, segundo calculamos tinha mais de 3 metros de comprimento, e era muito agressivo, o pirangueiro bateu o remo na direção dele, ele investiu em nossa embarcação, com a bocarra aberta, em um ataque fulminante, se fôssemos uma presa. O ataque foi tão instantâneo, que não deu nem para documentar, esta atitude feroz e incomum deste crocodiliano pantaneiro.
Na segunda passagem pelo “retão” tivemos o prazer de faturar este belo pintado, deu muito tralho para recolhê-lo, pois estávamos perto do barranco com uma árvore caída, se ele for para a galhada, perde-se o peixe, pois, ou enrosca, ou a linha arrebenta.
O segundo prazer do pescador esportivo, é soltar o peixe. Precisa ser com cuidado pois o peixe está exausto, e as vezes, jogados bruscamente torna-se um alvo fácil para as piranhas devoradoras.
Neste pedaço encantado da margem do rio, as flores deram o tom da beleza. O Pantanal para quem gosta da natureza é lindo demais.
Conforme luz e o ângulo, a tonalidade das flores e das árvores mudam de cor. Segundo os botânicos, pela beleza destas flores está árvore é feminina.
Considerações sobre está árvore que é um ícone no Pantanal, por possuir o e tronco oco e abrigo para formigas (daí a razão do nome comum), o pau-formiga pode chegar a 20 metros de altura. É uma espécie de rápido crescimento e que se adapta facilmente a terrenos úmidos. Por ser dioica, possui plantas femininas e masculinas que se diferenciam nas cores da flor. A feminina, de rosa intenso, é vistosa em relação à masculina, mais apagada. Elas podem ser vistas de agosto a outubro. Também conhecida por pau-de-novato, novateiro-de-mato-grosso ou formigueiro, esta árvore é empregada também no paisagismo, tendo em vista a beleza de suas flores. Apresenta preferência por solos muito úmidos ou alagados. De crescimento rápido, aos dois anos já atinge três metros de altura.
A uns 40 Km abaixo, estavam cruzando o rio um grande bando de capivaras filhotes ainda, mas guiadas com segurança com duas grandes fêmeas, filmamos foi bonito de ver.
Subimos o Rio Miranda novamente para rodarmos em outro poço, a subida também motivada por uma forte chuva que se aproximava. Como já disse, rodar com chuva, não dá certo.
Para escapar das chuvas tivemos que subir mais de 20 Km, e por felicidade chegamos a este lugar maravilhoso, O sol escapou entre os cúmulos congestos, e iluminou esta árvore criando uma imagem incrivelmente bela.
O lugar era lindo, contudo não conseguimos um bom lugar para rodada, não desistimos, novamente fomos descendo o rio, não se pegava nada, mas as paisagens eram lindas, principalmente onde a chuvarada tinha passado, como lavando a natureza, deixando-a pura para nossa visão.
Achamos esta “boca”, lugar ideal para a pesca. Os pássaros assinalam, pois é o lugar onde os peixes pequenos saem, e todos encontram uma farta alimentação.
À noite, em uma ocasião, no rio Paraguai, parei em uma boca onde as iscas estavam saindo, na região do Porto Sucuri, foi uma experiência inesquecível, para mim e o companheiro. Logo pegamos 2 grandes pintados, que seriam suficientes, pois estávamos navegando com a chalana Shekinah. Ali ficamos parados, ouvindo o cardume de pintados, cacharas e jaus, se fartando com o infindável cardume de iscas que saiam, das águas vazantes da “boca”. Jamais esquecerei a cena, grandes bocas famintas, se deliciando com a fartura pantaneira. Este fato aconteceu em setembro de 1979, um distante passado.
Voltamos a pesca.
Deu muita sorte, passado a boca do corixo, não havíamos rodado mais que 1 Km, quando a vara da Any enterrou na água. O piloteiro gritou, aguenta dona que este é grande. Foi uma “briga” bonita, as arrancadas da cachara, o tentear da pescadora no cabo da vara. Às vezes a carretilha cantava na fricção que soltava, mas com calma o peixe foi cansando, e vindo para o barco. Com cuidado foi embarcado.
Any o soltou com muita calma, pois o peixe estava estressado e muito cansado, ela esperou uns 5 minutos ele se recuperar e depois sair seguro, pois ali no poço havia muitas grandes piranhas. Um peixe desorientado e cansado, é um pratão para um cardume de grandes piranhas sempre famintas.
Na segunda rodada ferrei um bom pintado, esses peixes de couro, são brigadores tenazes, quando vêm que estão ferrados, partem para o fundo e para suas tocas, ou galhadas seus refúgios de caça e defesa. O pescador tem que manobrar a vara, atuando com a carretilha, para cansar o pescado até subir à superfície e ser colhido pelo puçá ou pela mão firme do pescador.
Nos enganou um pouco, não era tão grande, quanto a força que fazia na carretilha, mas indiscutivelmente era um belo espécime de pintado.
Foi solto também com muito cuidado.
Durante todo tempo que rodamos naquele poço, este casal de jaburus, ficou estático no seu ninho ainda em construção, a época do acasalamento estava chegando, a casa tinha que terminar depois de 40 dias, pois era a fase quando a fêmea põe seus ovos.
Já havíamos nos divertimos muito. O pantanal como sempre maravilhoso, mas o tempo estava fechando, alguns cúmulos nimbos ameaçadores se formando, assim satisfeitos e realizados, partimos para o hotel antes do mau tempo chegar.
PESCARIA DO DIA 17-09-2018.
Depois da rotina matinal, resolvemos subir o Rio Miranda, nossa primeira parada foi na boca do Rio Vermelho, um dos lugares mais piscosos da região.
Esta casa foi feita há muitas décadas bem mais longe do barranco da foz do rio, contudo com o passar dos anos o rio nas enchentes, foi erodindo a terra, e hoje o proprietário teve que fazer uma grande contenção, caso contrário sua casa neste lugar maravilhoso seria levada um dia pela enchente.
Incrível, mas o lugar não estava para bons peixes, as rodas foram infrutíferas.
Este jaburu, estava nos esperando nas rodadas, malandro, queria um trato, e jogamos uma grande tuvira para ele.
Pegou a comida em um lance, e saiu andando mantando o peixe e …
Virou as costas e saiu, macetando a tuvira, havia um galho junto com o peixe, ele não preocupou, deu alguns passos e decolou com a presa no bico, achamos que ele foi levar comida para um filho no ninho.
Realmente no dia seguinte subindo uns 10 Km o Rio Vermelho, encontramos em uma grande piúva o ninho de um tuiuiú, onde o canasal estava alimentando um filhote já bem grandinho.
Como havia dito o tempo estava muito instável, havia um grande cumulo nimbos, em nossa rota, uma parte de sua base já estava no topo do Morro do Azeite. Paramos nesta curva, que seria um ótimo trecho para uma rodada.
Foi ótimo, depois de uns quilômetros de rodada, de repente minha linha se esticou e saiu cortando firme a água para o lado do barranco. Dei uma fisgada firme, pois estes grandes peixes têm as estruturas da boca muito duras. Não deu outro resultado, o bicho foi “ferrado mesmo”. Aí a emocionante luta começou, a linha 45 cortava a água com sons agudos, devido à grande força do peixe, a fricção da carretilha cantava orquestrando a disputa. Como disse, ele queria correr para sua toca no barranco, mas o barco solto, ao sabor da correnteza, mediava a luta, fazendo o peixe ficar cansado, pois ele teria que nadar forte contra a correnteza.
Depois de uns 15 minutos de emocionante disputa, o grande pitado rebojou ao lado da embarcação. Foi retirado da água com o puçá. Maravilha de exemplar.
Dei um tempo para ele recuperar a oxigenação, a sente, pelas suas reações o momento de soltar.
Com todos fatores climáticos adversos os peixes estavam comento e propiciando emoções. Contudo a célula de tempestade a nossa volta, o CB rodando, e alguns raios começaram a cair nas altas piúvas da mata. Recolhemos as traias e saímos. O barco no rio não oferece nenhuma segurança contra os raios em um temporal.
A natureza é pródiga, é triste termos que viver, presos em nossos escritórios, e em nossas casas, de medo, medo mesmo! Não de onça, não de cobra, medo de gente, medo de ladrões que matam, medo de tantos bandidos sempre nos espreitando.
Ao lado de minha cidade Ribeirão Preto, passa um rio maravilhoso. O Rio Pardo, nasce em Minas na Serra de Ipuiuna, vem cortado divisas pela Serra da Mantiqueira, até desembocar no Rio Grande. Quando era menino, 70 anos atrás, ele era majestoso. Sua mata galeria era exuberante, me lembro bem. Contudo hoje nem preciso dizer a situação do rio, esgoto das cidades caem nele. Já possui um ranchinho em um lugar ermo deste rio, e o que recebi lá? Uma quadrilha de bandidos, que me roubaram tudo, até os portais da janela. O Homem perdeu sua homeostase com o ambiente e com o próprio homem!
Assim olho esta natureza sem perigo, sem medo, a 1.250 Km de minha casa, e documento, com a esperança que sempre ela estará lá, para as futuras gerações, e que um dia nossos rios voltem a ser o que sempre foram.
Imagens da mata galeria do Rio Miranda, com a chuva o rejuvenescer da vida. Ao fundo uma grande piúva, pronta para se abrir em milhares de flores.
Passamos o Morro do Azeite, deixamos o CB para trás, contudo seus ventos ainda agitam as águas. Um barco de pescadores passa por nós, lentamente, alguns turistas, em virtude do tempo chuvoso, estavam no restaurante esperando a chuva passar.
Quando temos a visão até os horizontes distantes, podemos nos extasiar com a dinâmica do clima & tempo. Vendo pelo GPS, nos afastamos para o Sul dos cúmulos nimbos, parece agora que ele dança ao redor da montanha, por sinal a única em um raio de 80 Km. Ele se parece com uma ciclópica bigorna, a martelar o ambiente. Às vezes seu interior se ilumina com os raios, clareando todo o espaço. Nesta situação os animais e aves, se “retiram”, tudo fica estático, o domínio é do vendo rodopiando no sentido horário por toda a região.
Vivemos sempre enclausurados entre paredes, de tal maneira que esquecemos de ver e sentir as mudanças do tempo, tudo tão grande, espaços infindos, mudanças profundas. E o que sentimos? O ruído branco do ar condicionado, o chamado constante de nossos telefones, e as pessoas sempre nos esperando para fazer alguma coisa. Vivemos de tal forma, que nos esquecemos completamente, da grandeza dos espaços e das mudanças do meio ambiente, e da maravilhosa Terra, onde vivemos. Em que mediocridade, as vezes transformamos nossas vidas?
O Morro do Azeite, é um ícone inquestionável do Pantanal. Ele tem vida própria e modula toda a exuberante ecologia da região em sua área de influência.
A turbulência passou, do alto do morro três cabeças secas passam planado em perfeita formação, exímios navegadores dos espaços.
Aproveitamos a calmaria pós chuvarada, e na segunda curva do rio, ainda no espectro do morro, iniciamos uma rodada. Foi muito frutífera, logo a Any sentiu o peso de uma grande cachara carregando sua tuvira. A fisgada, não foi com muita vontade, parece que ela estava duvidando do peixe.
Depois foi o regozijo, a alegria, e a luta, para tirar esta bela cachara, do fundo do canal, que ali existe. Foi uma briga boa.
Contudo, não pudemos continuar pescando naquele canal, pois o tempo virou, e um temporal partiu para nosso lado, não tivemos outro recurso, foi correr rio a baixo, como o vento era forte, chegamos no Rio Vermelho e subimos o rio. O objetivo era paramos em uma baia 10 Km acima, e tentar pescar com isca artificial aos peixes, era ver para crer.
Incrível mas começamos com a isca artificial pegar uns trairões, para diversão, e também, sabe como é pescador, poderia sair outro bom peixe.
Felizmente divertimos muito com as traíras, em cada canto da baia pegava-se uma, para retirar do anzol do pescado, precisa cuidado, pois os dentes deste peixe são como acúleos que cortam.
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Uma chuvinha miúda nos alcançou, o bonito foram os pingos d`água enfeitando as folhas flutuantes dos aguapés. A extensão das plantas aquáticas era grande, assim o tapete que podíamos observar era muito bonito, infelizmente a chuva não nos deixou fotografar o quadro.
A chuva estava chegando com toda força, assim achamos melhor sair do Rio Vermelho, e voltarmos para o Miranda. Acredito, que a umidade do pantanal, sendo muito elevada, o desenrolar dos temporais são esparsos e constantes.
No rio Paraguai deu sorte ainda pegamos dois pintadinhos de bom tamanho deu para sentir, na curva do rio, a força do peixe na correnteza mais significativa. É interessante, dependendo do poço onde o peixe é pego, temos sempre uma sensação diferente. Isso torna a pescaria sempre, imprevisível e emocionante.
O fim do dia é sempre uma surpresa, este bando de garças boiadeiras se refestelou com os peixes, neste alagado. Pararam todas, digerindo o “jantar”, antes de levantarem voo para o pouso noturno, que segundo vimos era no Rio Abobral.
A tarde esta propícia, as cacharas vorazes, logo o Lucas ferrou este belo espécime.
Logo em seguida ferrei um peixe muito bravo, forçou a linha para o fundo do rio, depois de muita luta consegui trazê-la para a superfície, esparramando água para todos os lados, era lutadora mesmo.
Depois de um certo tempo se entregou, nadando vigorosamente, não havia engolido a tuvira, acredito que fisguei no exato momento em que ela pegou a isca, o anzol estava bem na beirada de sua grande boca.
Alegria, alegria era uma grande e brava cachara, merecia muito voltar para a água e crescer ainda mais.
Na natureza o belo vai dos grandes, até o contraste de uma joaninha, que navegava pelo rio sobre uma grande folha.
NO OUTRO DIA RESOLVEMOS SUBIR O RIO MIRANDA ATÉ O RIO AQUIDAUANA, PASSAR PELO RIO NEGRINHO, E VÊ NOVAMENTE TODA A REGIÃO.
Estamos no encontro das limpas águas do Rio Vermelho, com as pardas águas do Rio Miranda, é um lugar icônico nesta região. Não sabemos o porquê, mas os peixes, ficam muito nessa região, pois há abundância de pequenos peixes vindos dos criames do alto Rio Vermelho.
Este grupo de cabeças secas, estavam procurando um lugar para se alimentarem, estava difícil de se entenderem, o líder ia em uma direção, mas os companheiros, não o acompanhavam, existe também discórdia entre as pernaltas do pantanal.
Paramos um pouco acima do Morro do Azeite, mas a rodada foi infrutífera. O que valeu foi ver este casal de aracuãs namorando. A fêmea muito exigente, por mais que o macho “cantasse” ela se esquivava, pulando de galho em galho, em uma dança agitada. Acredito que faz parte do jogo. Mas o que chamou a atenção mesmo, foi o contraste dos galhos da árvore e o fundo branco das nuvens estratos.
Mais acima encontramos um casal de ariranhas “caçando”, quando elas perceberam que as estávamos seguindo ficaram umas feras, soltando gritos agudos. A ariranha também é conhecida por onça d`água, lontra gigante, é encontrada no Pantanal e na bacia do Rio Amazona. Quando tem filhotes nas locas das margens, ficam muito mais agressivas ainda.
Geralmente andam em grupos, com um macho dominante, existem numerosos casos onde uma ariranha atacou uma pessoa: pescadores, ou mesmo que tenta nadar em seu território de caça e pesca.
Este grupo que vimos era bem grande, e tenham mais de 4 filhotes, quando nos aproximamos mais, o macho nos atacou, e as fêmeas foram levando os filhotes para dentro da mata galeria. Infelizmente não deu para fotografar.
Os machos alfas, nos atacaram ferozmente. Deu até medo. Parecia querer pular dentro do barco de tão bravo. Estes animais são agressivos, principalmente para defender suas crias e sua comida. Sendo perigosos, nunca devem serem desafiados.
Esta é uma bela fotografia do Gloogle mostrando, a ferocidade da ariranha, principalmente quando ela está se alimentando, de um peixe que ela caçou.
Esta é outra do Gloogle, mostrando uma grande onça pintada, na expectativa, de medo talvez, se atacaria ou não estas ariranhas. Segundo informações dos pescadores, a onça, somente ataca uma ariranha se ela estiver no seco, sozinha e ainda não muito grande!
Depois das emoções com o bando de ariranhas, logo à frente achamos uma sombra e paramos para “almoçar”, pois tínhamos muito rio pela frente para navegar. Mas, antes descansamos um pouco. São lugares riquíssimos em sons: A correnteza do rio fazia um ruído branco, ao contornar os galhos e os igarapés. Os aracuãs faziam sons característicos por várias exuberantes árvores da mata ciliar. Os peixes pulavam, caçando iscas por toda a superfície do rio. Enfim são tantos e tão diversos sons, que nos confundimos, com a brilhante e complexa orquestra da natureza.
Trinta quilômetros depois do bando de ariranhas, subindo o rio chegamos ao famoso Rio Negrinho, é muito emocionante navegar pelo Pantanal, cada curva uma visão e cada momento uma emoção diferente.
Como eu digo sempre o Pantanal é maravilhoso. Any queria pescar aí na foz do rio, mas o pirangueiro sugeriu chegarmos no Rio Aquidauana primeiro.
Este rio é maravilhoso, suas águas são limpas, ele vem de longas distâncias serpenteando pelo pantanal baixo. Águas mansas, porem profundas, limpas porem escuras, este é o motivo do nome. Uma maravilha, subimos uns 10 Km de rio, não para pescar, mas para usufruir da emoção de acompanhar aquele fluxo escuro de águas limpas, que caminham serenas pela planície infinita de nossa imaginação.
Depois de uns 10 Km, ele recebe um grande e lindo corixo também de águas limpas, que desagua na margem esquerda do Rio Negrinho. São imagens azuis que se encontram a nossa frente em um criptar de pequenas ondas.
Tudo é tão harmônico e majestoso, que não temos a ousadia de questionarmos a existência de Deus, mas sim a certeza absoluta de estarmos dentro d`Dele. ELE nos envolve totalmente, neste imenso espaço, os sons das aves cantando e voando, por todos os lados. O próprio ar varrendo a imensidão da planície alagada. Os peixes, fugindo da bocarra dos jacarés. O grito distante da capivara fugindo de uma sucuri faminta. Minha alma de regozija, de fazer parte deste milagre, que é a vida.
Claro, sempre me pergunto, por que não ir até o fim do corixo, agora com o GPS não teríamos problema para a volta. É dar um “trak back” e voltar, mas fiz isso apenas uma vez no rio Vermelho, foi emocionante. Um dia farei isso, se Deus quiser aí no Rio Negrinho também.
Quando saímos do Rio Negrinho, o pirangueiro sugeriu uma rodada na foz do rio. Foi sorte, havia peixes no estirão do rio Miranda. Logo peguei este pintado, Any também pegou um, e foi muito divertido e emocionante.
Alguns quilômetros a montante, paramos em um outro estirão, deu uma sorte louca, pois todos nós pegamos um peixe, incrível, tem dia que é mesmo do pescador, pois o outro é do peixe. Estes pintados estavam a fim de comer mesmo, atacavam a isca, violentamente, a fisgadas eram firmes, e a luta para valer.
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Não teve discussão o maior pescado, na área, foi de Lucas mesmo. Uma maravilhosa cachara.
Soltando o troféu aos poucos e com cuidado. Observando a natureza aprende-se, até soltar um peixe ou um pássaro. A homeostase tem que estar presente sempre.
O sol mergulhava no oriente, estas duas fotos foram tiradas no espaço de dois toques. Contudo no momento percebi uma diferença muito grande entre as duas imagens. Talvez as imagens não traduzam as diferenças que senti. Diferenças nas luzes, nas sombras e nos sons da natureza.
A lenda dinâmica da natureza, passa quase imperceptível, como os quadros deste pôr do sol. Assim creio ser nossa existência, na maioria do tempo, não damos o valor necessários aos cenários de nossa existência.
Estamos a 60 Km da pousada, e o motor começou a falhar e parar, sorte que o piloteiro, achou um recurso, bambando a gasolina o motor ia, foi nossa sorte, senão?
O motor firmou com o recurso, foi só alegria, pois o sol ia sumindo no horizonte, a noite chegando, sem o motor estaríamos em uma situação difícil, na distância que estávamos do hotel.
Conforme as curvas do rio o poente se alterava, em luzes e sombras.
O rio se contorcia em curvas, o sol ora a frente, ora ao lado e ora atrás. A luz do sol se alterava, nas curvas do rio.
Neste momento a paisagem era de luzes, sombras e escuridão. A água como um espelho refletia o dourado dos céus. Como esquecer uma imagem magnífica desta? Estando lá presenciando este pôr do sol.
Depois de umas curvas, as luzes do sol desapareceram, era a escuridão chegando. Paramos o motor. Tentamos identificar os sons da tarde: Os gritos estridentes dos aracuãs, os casais de papagaios barulhentos em busca do ninho, o socó boi com seu gutural canto, enfim, uma mistura de sons que orquestravam a despedida do dia, no pantanal.
DIA 21-09-2018 – SEXTA FEIRA. Nosso último dia de passeio e pesca.
Neste último dia, estávamos nos sentindo realizados, os passeios e as pescarias foram excelentes, agradecemos a Deus, e com tranquilidade partimos para o rio.
Logo na curva do rio não muito distante o Lucas pegou uma cachara, pequena, mas muito esperta. Valeu.
Um pouco antes do Morro do Azeite, em uma pronunciada curva, passou por nós, flutuando pelo rio, um jacaré morto e já inchado pelo tempo de sua morte. Sabemos que os jacarés do Pantanal têm apenas dois inimigos, a onça pintada e a sucuri. Como ele não tinha sinais de ter sido comido, chegamos à conclusão que ele havia sido provavelmente “amaçado” por sucuri, ela não teve jeito de comê-lo, por isso ele estava à deriva. Vida e morte no Pantanal, é assim mesmo.
Logo depois uma outra bela cachara foi pega.
Any logo mais acima, próximo ao Morro do Azeite, creio que pegou a maior e mais brava cachara de nossas pescarias, foi realmente uma emoção digna, dos dias de nossas pescarias. Era um espécime de medida e um belíssimo peixe de nosso Rio Miranda. Valeu a pena.
Algum tempo abaixo, ferrei também esta cachara, não era tão grande mais foi uma briga boa, pois foi a segunda que peguei, a primeira era realmente ainda um filhote, logo a soltamos pois são muito sensíveis e o anzol a havia machucado muito.
Any muito satisfeita começou a ver e fotografar flores, achou estas no barranco iguais a que temos em casa, fotografou e ficou feliz.
Lucas pegou o último peixe da nossa temporada de pesca, foi uma despedida muito agradável, descemos o rio, olhando toda a natureza, vendo algumas bocas que iriam despejar águas e iscas, era a vida no Miranda se renovando.
A noite após o jantar, fomos ao porto do hotel nos despedirmos, tudo tão sereno, tanta paz, e os sons da noite são impressionantes. Primeiro o longínquo e grave soar das águas do rio contornado os suportes do ancoradouro. O canto misterioso da Mãe-da-lua, o Urutau. As corujas conversam com seus muxoxos, por vários cantos da mata galeria, e os morcegos não paravam de ziguezaguearem pelas luzes pegando os insetos da noite.
Esta fotografia é do Google, pois não consegui fotografar nenhum na mata. Seu mimetismo é tão impressionante que o escutamos, em seu canto triste e um pouco assustador, mas não o localizamos de maneira nenhuma.
Tudo é chamoso nestes lindos espaços perdidos do Pantanal. O hotel procurou conservar o máximo possível da natureza em seu entorno. Sentimos intensamente a natureza pantaneira nesses momentos. Any estava cansada, mas mesmo assim, andou por todas passarelas, despedindo dos sons da noite e das estrelas que brilham na escuridão.
DIA 22-09-2018 O DIA DO RETORNO:
Não acordamos muito sedo, havia muita traia para acabar de organizar, mas estava tudo bem no jeito pois Any é muito organizada, Graças a Deus.
A despedida ficou por conta de um bando de araras azuis, estavam excitadas e barulhentas, eram muitas, acredito que em fase de acasalamento, pois era uma disputa sem fim pelas fêmeas, no cio. Não paravam, foi difícil até fotografá-las. Indiscutivelmente são pássaros muito lindos, se destacam na natureza.
Como disse, saímos tarde, pois as capivarinhas já haviam se alimentado e estavam dormindo ao quente sol da manhã.
Saímos, mas não fomos diretos para a cidade de Miranda, no trevo pegamos a direção de Corumbá, pois queríamos ver o 50 Km de ipês amarelos, que margeiam a estrada
Durante toda a estrada as flores símbolo do Brasil, vão balizando a rodovia, tudo fica muito lindo, é quase inacreditável de ser visto. Deve ficar bem documentado, que os ipês amarelos estão presentes em toda a região, estes nasceram aí naturalmente, assim como todas as árvores desta rodovia.
O ipê amarelo é diferente do ipê roxo, não somente pela cor de suas flores, mas também pelo porte e localização das árvores no Pantanal. A árvore do amarelo é como veremos, menores, dão flores luxuriantes, e desde pequeno ficam totalmente floridos.
Já o ipê roxo no Pantanal, geralmente são árvores de muito maior porte, com caules mais retos, e terrenos diferentes, e lá são chamados de Piúva.
Esta é a verdadeira piúva pantaneira, com sua beleza incrível, quando as flores caem, nas margens do Rio Paraguai, na região do porto Sucuri, as flores descendo pelo rio formam um tapete de inigualável beleza. (Foto do Gloogle).
Realmente este grande trecho de estrada no pantanal é de uma beleza indescritível. Retas intermináveis que se perdem no amarelo das flores. Quando as conduções passam a grande velocidade, as flores no chão se agitam, em rodopios coloridos, tornando a imagem muito dinâmica e vibrante, por pequenos espaços de tempo.
Às vezes há uma solução de continuidade nas marginais dos ipês, e podemos ver uma cena como esta. Uma pequena lagoa, secando, e os peixes sem saída, servindo de comida para todas estas garças brancas. Todas as árvores que se vê a distância são pés de ipês.
Any quis descer e andar pelo caminho, sentir fora da velocidade da condução, qual a sensação de um lugar como aquele, milhares de árvores em flores, e aves voando nas mais diferentes direções. Miríades de abelhas zunindo em rodopios intermináveis pelas flores, cheias de “mel”. As árvores, e a estrada, pareciam se unirem nos perdidos das retas infindáveis de nossa vista.
Depois de 50 Km achamos um típico pé de ipê amarelo, e ao fundo a perder de vista milhares de pés de ipês, não estavam floridos, pois pela área onde eles estavam havia passado uma grande queimada, tudo estava em recuperação com as chuvas que caiam. Chuva é vida, especialmente no Pantanal. É um renovar, do solo, das plantas dos animais e das águas com seus peixes maravilhosos. É a homeostase em demonstração na natureza.
Logo depois Any disse: Para, para, para, um casal de cervos do pantanal, eles estavam bem perto, mas como a estrada não tem acostamento, tivemos que esperar uma área segura para estacionar. Neste tempo os cervídeos foram se distanciando
Realmente o cervo pantaneiro é um animal soberbo. Todas as vezes que eu pude observá-los seu aspecto é de um animal soberbo. Maravilhoso, um enfeite da natureza.
Mas, o homem o tornou precavido, arisco, e cuidadoso com a presença das pessoas. Foi caçado por muitos anos.
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“O cervo do pantanal, também chamado de suaçuapara, ou simplesmente cervo, é um mamífero ruminante da família dos cervídeos. Ocorria em grande parte nas várzeas e margens de rios. Atualmente, a espécie só é comum no Pantanal. É o maior cervídeo sul-americano, podendo pesar até 125 kg e ter até 127 cm de altura. Os machos são um pouco maiores que as fêmeas e possuem chifres ramificados. Os cascos são longos e podem se abrir até cerca de 10 cm, graças à presença de uma membrana interdigital, o que é uma adaptação ao deslocamento em ambientes inundados. É preferencialmente solitário e diurno, e seus predadores são as onças”.
Por exemplo, no pantanal maravilhoso do Rio do Peixe, um importante afluente do Rio Paraná, a oeste do estado de São Paulo, no município de Panorama, nas décadas de 1950 e 60, haviam inúmeros cervos do pantanal. Primeiro foram caçados e perseguidos. Décadas depois, com a represa de Sérgio Motta, no Rio Paraná, o pantanal deste rio foi inundado. Propagandas, foram feitas, de cervos sendo retirados com helicópteros, entre outros animais, como antas, onças, cobras, etc. Contudo, onde foram estes animais? Não sabemos, e nunca saberemos
Esta fotografia é de 40 Km antes da cidade de Miranda. Parei pela beleza da árvore em flores, pelo aspecto é um ipê, mas isso não é o mais importante, o importante é o pasto de braquiária, invadindo o Pantanal Baixo. Onde o capim nativo, sede lugar a braquiária e o boi, é lógico, vem atrás. E, a natureza? Se recua, perdendo seu espaço. O cervo não gosta, não conhece esta gramínea africana, mesmo a capivara, e tantos outros herbívoros, acostumados ao capim mimoso, não se adaptam a este ecossistema e se afastam perdendo espaço.
Esclarecendo: A braquiária é nativa da África, algumas espécies foram introduzidas no Brasil como plantas forrageiras e transformaram-se em uma espécie invasora de diversos ecossistemas brasileiros, como o cerrado. Como invasora, ela compete com o desenvolvimento das gramíneas nativas e sufoca o desenvolvimento dos campos nativos. Como pastagem cultivada, transformou a pecuária no Brasil Central em atividade lucrativa.
De Miranda começamos a viajar para vencer distâncias mesmo. Passamos Aquidauana, Campo Grande e Ribas do Rio Pardo, e fomos parar para jantar em Água Clara, em um grande posto de gasolina, onde existe uma macro loja de departamento e restaurnte.
Any ficou mais de hora admirando os produtos do setor da grande loja. Tem tantas coisas que até é difícil de imaginar. E comida boa também.
Depois de descansar, e nos alimentarmos bem, partimos com muita calma para Três Lagoas onde iríamos dormir.
Durante o trajeto a Any viu ao lado da estrada uma cena extraordinária, infelizmente não deu para documentar.
Tudo se passou rapidamente, eu que estava guiando vi bem no limite da luz dos faróis, apenas vultos passando muito rapidamente. Any gritou olhe lá, olhe lá que coisa, parece logo, pare logo!
O que viu, um cervo passando a longos saltos, pouco depois no encalço uma onça pintada. Isso no limite da iluminação. Passamos no lugar indicado por ela. Com as lanternas potentes que tínhamos, ela desceu rapidamente, e conseguiu ver ao longe o cervo que corria, pelo banhado do rio que acabávamos de passar. Desci correndo com a máquina fotográfica e subi no barranco.
Any gritou, você demorou muito o cervo sumiu. Ela com as duas lanternas ficou procurando e viu nitidamente mais acima do lugar onde o cervo sumiu, os esverdeados brilhantes olhos da onça. Fotografamos, mas apenas uma pequena luminosidade apareceu na negra escuridão do banhado.
A fotografia não mostra nada, apenas assinala o local onde poderia estar o felino atrás do cervo. Ficamos muito emocionados, pois foi uma aventura para Any que viu acena.
Paramos em TRÊS LAGOAS para dormir.
Estamos saindo de Três Lagoas, a data da fotografia está errada, o dia é 23-09-2018 em todas as outras que seguirão, esta é a data certa.
É muito emocionante, ou eu diria intrigante, voltar para casa. Gostamos muito de viajar, conhecer lugares, mas quando vemos ao longe o nosso Estado sentimos uma alegria lá no fundo do coração. É a famosa: VOLTA PARA CASA.
Desde longas épocas, falar em ir para Mato Grosso, representava uma grande aventura. Em 1955, eu tinha 15 anos, meu pai com amigos estava preparando seu “potente” Jeep 1951, para ir para Mato Grosso. Seus companheiros de viajem iriam de caminhão ¾ da Chevrolet, eram aventureiros, tinham até que levar dois tambores de gasolina, pois no trajeto, estradas ruins, e não havia posto de abastecimento. Realmente era uma grande aventura.
Hoje, cruzamos essas divisas, quase como se elas não existissem, a única coisa que muda mesmo é a qualidade das estradas no estado de São Paulo. A divisa realmente é o Grande Rio Paraná.
Aí está o famoso Paranazão, quantas histórias deste rio, hoje um marco no mapa do mundo graças a suas Hidroelétricas: Ilha Solteira, Jupiá, Sérgio Mota, Sete Quedas e a maior do mundo em produção de eletricidade, Hidroelétrica de ITAIPU, que bateu o recorde mundial produzindo 103.000 milhões de MW.
Any saiu guiando de Três Lagoas e firme no volante com destino, Ribeirão Preto. Neste momento ela está passando a divisa do estado.
A última visão da viagem, a travessia do Rio Tietê, na represa de Ibitinga. Já sentindo o fim da viagem, fico muito feliz de estar chegando, de uma maravilhosa aventura. Agradeço a Deus estas oportunidades que a vida nos têm oferecido.
FIM.