Complexo da Serra da Canastra

Viagens 

Sérgio N M Lima.

COMPLEXO DA SERRA DA CANASTRA.

A região ecoturística da Serra da Canastra tem mais de 200 mil hectares e abrange 6 municípios: São Roque de Minas, Vargem Bonita, Delfinópolis, Sacramento, São João Batista do Glória e Capitólio. A maior atração é o Parque Nacional da Serra da Canastra, criado em 1972 para proteger as nascentes do rio São Francisco e que tem a portaria principal a 8 km de São Roque de Minas. Dentro do Parque Nacional está alguns dos mais belos cartões postais do Brasil, como a cachoeira Casca D’Anta, de quase 200 metros, a primeira grande queda D`água do “Velho Chico”.

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Nas trilhas da Canastra lembramos muito uma frase do livro Grandes Sertões e Veredas de Guimarães Rosa: “Não nos importamos com a saída nem com a chegada, o que importa é o trajeto”.

 

PARA TERMOS UMA NOÇÃO DO COMPLEXO DA CANASTRA.

Organizei estes mapas, de nossa cidade Ribeirão Preto, até nosso destino no Complexo da Canastra.

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Rota: Ribeirão Preto, Batatais, Altinópolis, S. Sebastião do Paraíso, Passos, Itaú de Minas, Furnas, Piumhi, Cabresto, Vargem Bonita e São José do Barreiro.

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Este é o mapa da região onde fizemos as trilhas. Na realidade são três os chapadões que compõem o complexo da Canastra:

  1. 1. Chapadão da Zagaia, uma área muito grande, onde fica a Serra da Canastra. Localiza-se na região Norte do Complexo da macrorregião. Oficialmente, a parte da Serra da Canastra, propriamente dita, é chamada de Parque Nacional da Serra da Canastra. Tem um comprimento de 80 a 100 Km e 40 a 50 Km de largura.
  2. A Chapada da Babilônia, onde está a Igrejinha sobre a qual falaremos bastante em nossa viajem. Separando a Serra Canastra da Chapada da Babilônia temos o profundo Vale dos Cândidos por onde, após a Casca D`Anta, corre o Grande Rio São Francisco. Este lugar é um divisor de águas, as chuvas e os rios que caem para a direita, (Leste), são da Bacia do São Francisco. Os rios da esquerda, (Oeste), vão para o Rio Grande, bacia da Prata.

Para se subir do Vão da Babilônia para a Chapada da Babilônia, temos a subida da Pedra Branca que é o tira teima dos Jipeiros e motoqueiros. Por sinal, foi a passagem do Rally dos Sertões.

  1. Serra Preta, ao Sul, entre ela e a Chapada da Babilônia tem o monumental Vão da Babilônia. A Serra Preta é o contraforte da Represa de Peixoto. Assim, no alto da serra, quando se passa pela Trilha do Céu, a visão da Represa de Peixoto no Rio Grande é alguma coisa maravilhosa. No início da escarpa da Serra Preta, passa o encachoeirado Rio Batéia.
    Na encosta Sul da Serra Preta, vê-se a represa de Furnas.
    Nota-se no mapa que a Cidade de Capitólio, onde a bacia hidrográfica do Rio Grande quase se encontra com a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, foi feito uma barragem para que não houvesse transposição das águas de uma bacia para outra.
    Esta é uma cópia de um Mapa da Força Aérea Americana, USAF (1975)4
  2. Este é um mapa mais ampliado do anterior, assinalando os pontos por onde andamos.
  3. Portaria para entrada no Parque Nacional da Canastra na frente de São Roque de Minas.
  4. Nascente do Rio São Francisco, é impressionante imaginar aquela pequena mina, formando um límpido riacho, correndo manso pela chapada, com cardumes de lambaris nadando displicentes e tranquilos, vai se poluindo e
    poluindo, dejetos de centenas de cidades são lançados nele, até que poluído e
    quase exaurido deságua no azul do Oceano Atlântico. Quando se passa de avião no delta de sua foz, percebe-se a escura mancha do caudaloso rio, maculando o azul do oceano.
  5. No ponto 3 é a Casca D`Anta, onde o rio se precipita do Chapadão da Canastra para o Vale dos Cândidos, uma queda de mais de 170metros. É um lugar simplesmente maravilhoso e soberbo.
  6. A Igrejinha. O ponto mais alto do Chapadão da Babilônia e seu limite com o vale do Rio São Francisco..
  7. Subida da Pedra Branca.
  8. No ponto A, está a Pousada Recanto da Canastra do Sr. Soares, um ponto de referência na Marcação do GPS Sul 20 – 21 – 435—W: 46 – 29 – 129.
  9. Marcação do Posto de Abastecimento em São José do Barreiro, GPS, Sul 20 – 20 – 433——-W: 46 – 29 – 092. è um ponto importante, pois antigamente não havia abastecimento por lá e “era fogo”. Já chegamos a comprar gasolina à custa de muita conversa, do tanque de um fusca .
  10. Após o Chapadão da Babilônia, em direção oeste vem a Serra das Sete Voltas.

São centenas de lugares, pequenas serras, grandes grotões, é muito difícil decliná-los todos, ainda mais que existem divergências de nomes, conforme as pessoas nos informam.

A VIAGEM: Sim, posso afirmar que, para quem gosta de conhecer, saber a história, a vegetação, a geologia, nada mais agradável do que a viajem. Importante. Sabendo onde anda e buscando conhecimentos.

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Esse é praticamente o lema de quem sai pelas trilhas deste maravilhoso Brasil. Aí estamos parados na estrada, historicamente importante, ela liga Sacramento a Portaria, número 3 de entrada da reserva da Serra da Canastra. A estrada tem mais ou menos 70 km, passado perto da vila de Desemboque, uma vila importantíssima e muito antiga. Há mais de 3 séculos, ela existe, e é um polo de onde irradiou a povoação de toda região do Triângulo Mineiro, que naquele tempo se chamava, Sertão da Farinha Podre.

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Esta é uma Igreja do ano de 1766, da vila, essa era frequentada somente pelos brancos e ricos. Há outra de adobe construída pelos escravos, para ser frequentada por eles. As igrejas são os únicos resquícios da riqueza de Desemboque, do tempo em que o ouro era achado em toda a região.

A região do Rio Grande, e Rio Araguari, formam uma mesopotâmia (entre rios), que era dominada pelos índios Caiapós. A vila de Desemboque era a única em toda essa imensa e rica região. As brigas, lutas, entre índios, faiscadores e quilombolas eram sanguentas e constantes na região.

A vila fica entre o Chapadão da Zagaia e o Chapadão do Bugre, bem mais ao Norte. Essa região foi muito bem retratada no livro de Mario Palmério: O Chapadão do Bugre. Que deu origem até em uma série de televisão.

Quando o ouro acabou, a vila morreu, e seus habitantes migraram, dando origem a várias comunidades, que se tornaram cidades, por exemplo, Uberaba, Sacramento, Araxá.

CARTÃO DE BOAS VINDAS.

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Logo depois da entrada de Desemboque, A Any fotografou este bando de jacutingas. Uma ave que era muito abundante na região, hoje é muito rara. Raríssimo de se encontrar um bando como este.

Entramos pela portaria número 3, na Serra da Canastra, que faz parte do Chapadão da Zagaia. Passamos ao lado da famosa fazenda da Zagaia, que deu origem ao nome.

Consta a história, que nesta fazenda, havia uma armadilha de zagaias no teto sobre a cama dos viajantes que lá se hospedavam. Durante a noite, eles soltavam a estrutura que matava o hóspede, e este, sempre com valores nas bruacas, eram roubados. Quando descobertos, acharam mais de 100 esqueletos perto da fazenda. Daí o nome do Chapadão, da Zagaia.

Zagaia é uma lança para matar animais, especialmente onças. Nos idos tempos, que haviam muitas onças pintadas e “cabras machos” demais para mata-las com uma lança.

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Esta uma zagaia típica, ao lado de uma onça, que segundo consta, foi morto com a zagaia, no século passado.

ENTRAMOS NA SERRA DA CANASTRA.

A Serra da Canastra, na realidade é uma região do Grande Chapadão da Zagaia, que se estende para o norte, e se limita com a região conhecida por chapadão do Bugre, Ao Sul o vale do Rio São Francisco, a Leste está a cidade de são Roque, a Oeste a Serra da Sete Voltas.

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Estamos parados no início da estrada que corta o alto da serra. Apreciando a paisagem, belíssima, de horizontes distantes, de estradas e trilhas sem fim. O solo é do período cambriano, de mais de 450 mil anos, contudo no decorrer deste tempo imenso, sofreu inúmeras influencias tectônicas e de erosões, que a estão transformando no que aparenta hoje.

No entorno de todos os chapadões da região, existem uma formação de Kimberlitos, que são rochas típicas da presença de diamantes. Seu nome vem de rochas achadas na África do Sul, que é o país maior produtor de diamante do mundo. Consta que nas praias da Namíbia, NW da África do Sul, os piratas de séculos passados, encontravam diamantes nas praias e nas areias do deserto, da região.

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Nos vales da estrada, existem números riachos de límpidas águas que brotam de minas das encostas, aí a vegetação muda. Aparecem árvores típicas do cerrado e um capim vassoura abundante. Nestes recantos, encontramos vidas, como este casal de seriema, bandos de lambaris nas águas e bandos de canários da terra colorindo de amarelo seu habitat, em seu ininterrupto e agitado voo.

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Em uma praia beira da água, vimos este casal de fogo apagou, é uma pombinha, parente da rolinha, que se diferenciou nesta espécie. Elas são muito sensíveis e somente vivem em lugares puros, sem nenhuma contaminação. É muito raro ver um casal deste atualmente.

O COMPLEXO DA CANASTRA:

Nestes chapadões e serras, são as nascentes de inúmeros rios e riachos: O Principal, lógico é o São Francisco, Rio Bateia, Rio do Claro, entre dezenas de outros. Que ao saírem dos chapadões, despencam em inúmeras cachoeiras, sendo um atrativo turístico de primeira grandeza.

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Nas encostas do Chapadão da Serra Preta, saindo de Delfinópolis e passando pelo Claro, rio e a cachoeira, encontramos paredões abruptos, que ao longe, nos parece uma imensa cidade. É simplesmente impressionante a região, por isso é chamada de Cidade de Pedras.

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Na volta de uma trilha, passando pela Cidade de Pedra, ficamos impressionados com essa imagem. Ainda mais, que na areia da beirada da “estrada” havia nitidamente um rastro de uma onça, bem recente, ela havia caminhado por ali por mais de 200metros. Paramos e tentamos ouvir alguma coisa. Nada. Depois de uns 20 minutos, começamos a descer a encosta. Mais à frente um assustado tatu peba, pulou do capim a minha frente, felizmente consegui frear sem atropelá-lo. A imagem da onça, no encalço do tatu não sai da minha mente. Achamos melhor seguir rapidinho nossa trilha. Pois a onça é uma caçadora implacável.

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Lindas assim são as cachoeiras das vertentes dos chapadões, cada uma com suas características e personalidades. Não daria para eleger uma mais bonita, são tantas que em nossos pensamentos nos confundimos. Melhor deixamos elas correrem em nossa mente, como o fluxo de água que despenca por suas vertentes.

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Esta é uma inesquecível visão do Vão da Babilônia, visto do alto da subida da Pedra Branca. Do lado direito é a Serra Preta, onde passa a Trilha do Céu. Do lado esquerdo, a escarpa do Chapadão da Babilônia, que dá nome ao maravilhoso vale. Ele termina ao sul na Subida da Estrada da Pedra Calçada. Depois desta, tem início o Vale do Céu, onde está a pousada do Eninho e Dona Gasparina, que mostrarei no seguir das trilhas.

O nome chapadão da Babilônia é muito bem escolhido. Pois o conceito que se tem do nome, refere-se a alguma coisa muito grande e complexa, pois assim é o chapadão, ele inicia-se nestas escarpas, e estende-se por mais de 50 km para Este até a região dos Canteiros.

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Esta é a subida do Morro da Pedra Calçada, onde é o limite do Vale do Céu.

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Esta trilha é o final da Trilha do Céu por sinal ela apresenta grande dificuldade para ser concluída.

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Esta imagem mostra as dificuldades da trilha. Umas partes do quadricíclo aparece a esquerda, para transpor a erosão. Tiveram que conduzir pelo barranco da trilha. Nesses lugares precisamos de muita calma e perícia.

Quando ela termina, subimos uma íngreme montanha, onde sempre paramos para almoçar. Ficou chamado de Morro do Almoço. Hoje essa subida sofreu um grande processo de erosão, aumentado pelos trilheiros, que rasgaram essa trilha muito íngreme, tornando sua subida muita ariscada, assim houveram por bem fecha-la com uma cerca de arame. O morro agora tem que ser contornado para se chegar ao sítio do famoso Tio Zezito e a subida da Pedra Branca.

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Logo depois do sítio tradicional da região, que já ajudou muitos trilheiros, incluindo eu e Any nos vendendo gasolina. Pois às vezes nos perdemos e o combustível, vai terminando, vem o desespero. Quando aí chegamos, ele nos vende duas garrafas de pet cheias de gasolina, é a salvação.

Logo depois do curral do sítio, encontramos um riacho, que acredito ser o início do que seria afluente do Rio Bateia.

Agora tem ponte para travessia, mas antigamente não. Mesmo assim, nós gostamos de atravessá-lo pela agua. É pura adrenalina, pois tem lugares que o rio é bem fundo. Existe uma história, que no jipe bandeirante do Merli, após a travessia, tumultuada, foi achado um peixe dentro da condução.

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Estou no alto do Morro do Almoço, de onde podemos ver a subida da Pedra Branca, o sítio, e a pequena mata galeria que acompanha o rio que atravessamos. Nesse ponto, tem início o vale da Babilônia. Com muito boa vontade podemos ver um jipe já iniciando a agressiva e perigosa subida. A fotografia a seguir é o trecho, entre o rio e a subida, que por sinal não é nada fácil.

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Aí estamos lutando para chegar a subida da Pedra Branca. As chuvas criaram erosões, nesta trilha, que são verdadeiros desafios nessa subida. Há necessidade de muita cautela, pois ao lado da trilha é uma ribanceira mortal. É um lugar onde os trilheiros têm realmente que demonstrar suas habilidades.

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A subida da Pedra Banca, sempre foi um desafio. Ela nos conduz ao alto do Chapadão da Babilônia. São pedras soltas, são erosões e grandes rochas a serem transpostas.

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Lá está um jipe e o quadricíclo, lutando para a subida. Pode-se notar as dificuldades desta trilha. Cuidados devem ser tomados, sempre para percorrer, estas trilhas, pois acidentes nesses lugares podem ser fatais. Como já ocorreram.

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Aspectos da subida da Pedra branca.

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Aí está o desbravador da Canastra, o famoso GG, subindo de forma segura, mas pererecando nos cascalhos e dizendo: “Isso não é nada, a primeira vez, subi este morro, com meu filho de 15 anos na garupa e chovendo”.

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Esta é uma visão geral da subida, tendo ao fundo o maravilhoso vale da Babilônia. É incrível como a gente se sente pequeno, frente a vastidão desses espaços.

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Esta estrada corta a parte norte do Chapadão da Babilônia, não é uma trilha muito fácil, existem vales profundos e com muita erosão. A medida que se percorre a trilha ela vai se complicando.

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Aí está um aspecto de como a trilha se modifica e se complica. Esta estradinha continua, as vezes melhora um pouco, as vezes torna-se incrivelmente complicado o trajeto.

Depois 20 km aproximadamente nessa trilha existe uma encruzilhada, com uma sinalização: Seguindo para a direita, chega-se a São José do Barreiro, descendo do chapadão pela terrível trilha da Serra do Rolador. Seguindo-se pela esquerda, vamos em direção a Cachoeira da Casca D`Anta e vale do Rio São Francisco, seguindo-se a estrada, chega-se depois de 9Km a São José do Barreiro.

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Seguindo pela trilha da esquerda, chega-se a famosa Igrejinha, um ponto referencial por toda a região. Ela fica no limite do chapadão da Babilônia com o Vale do rio São Francisco, em direção ao leste. Ao longe, em direção a oeste pode-se ver o início do Vale dos Cândidos. Bem à frente da igrejinha, bem ao longe, avista-se a cacheira do rio São Francisco, despencando graciosamente da Serra da Canastra.

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Neste alto de 1600m, somente o ruído branco do vento estávamos escutando, quando um canário da terra com melodioso cantar, nos despertou para a importância e a beleza do lugar onde estávamos.

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Eu e GeGe, do alto da Igrejinha, as cidades do vale são vistas, como pequenas manchas, na linha do horizonte.

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Na descida da Igrejinha para o vale do Rio São Francisco, parei na beirada deste profundo vale, era uma vista inesquecível, A profundidade era tanta, que o gado no curral, somente era visto, pois eles se mexiam. Com a seca na região, a comida, o pasto, era escasso, com isso todo animal, fica andando a procura de um ramo, uma macega, para se alimentar. Fiquei imaginando as pessoas que deviam morar naquela grota tão profunda. Uma casinha branca, um paiol pequeno, e o pasto ralo e ressequido, somente os animais se mexiam. Por um tempo, fiquei imaginando, como seria a vida daquelas pessoas? Com estas imaginações na mente, vi meus companheiros sumirem na poeira da trilha, e lá fui eu, pois tínhamos muito chão para rodar.

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Ai estão os companheiros, nos limites do chapadão, muito ao longe, onde existe um minúsculo x, na fotografia, está a cachoeira da Casca d`Anta, despencando da Serra da Canastra. Esta fotografia, tenta mostrar, as imensas distâncias, existentes nas trilhas do Complexo da Canastra.

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Não poderia deixar de mostrar o exato lugar onde nasce, o famoso rio da integração nacional.

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O quadricíclo está atravessando a primeira ponte que cruza o rio, logo após sua nascente. Grandes cardumes de lambaris nadam tranquilos em suas límpidas águas sob esta ponte.

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Estamos na encruzilhada onde se entra para chegar no alto da serra, de onde o rio S. Francisco, se precipita para o vale, dando origem a cachoeira.

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Este muro de pedra foi provavelmente construído pelos escravos, nos tempos áureos da região. Eles faziam os limites das propriedades, assim como a divisão dos pastos. Ao longe tem um sinal que mostra um curral feito de pedra. É um dos atrativos da Serra da Canastra o famoso Curral de Pedra. Ao fundo está o início norte do Chapadão da Babilônia. Existem na região toda, milhares de quilômetros de muros de pedra como este da fotografia.

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Esta água limpa e serena corre nas alturas do chapadão, formam um pequeno vale muito bonito. Como é a natureza! Imaginar que a mansidão destas águas, no decorrer de milhões de anos abriram uma fenda majestosa por onde o São Francisco precipita-se no vale, 100m a baixo, formando a Cachoeira da Casca D`Anta.

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A visão no limite do chapadão na cachoeira é magnífica. Sente-se até certa vertigem pelos espaços que se abrem, no despencar das águas. Bem no sopé, a mata galeria do São Francisco, correndo em curva na direção de São José do Barreiro, e depois cortando o Brasil. A nossa frente, o Chapadão da Babilônia, e no canto direito da foto, um pequeno risco branco que é a trilha que sobe para a Igrejinha.

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Aí está a Casca D`Anta com toda sua magnificência, é deslumbrante e inesquecível sua visão.

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Estávamos no alto da estrada da Canastra quando vimos essa cobra, que por sinal não sabemos o nome, atravessando a estrada. Era quase noite. Os faróis do quadriciclos a iluminou, no mesmo momento ela ficou estática. Pareceu-nos ser venenosa, não sabíamos. Depois de certo tempo, ela rapidamente deslizou para o mato.

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Havíamos saído da Casca D`Anta, e pouco antes de São José do Barreiro, o sol, a posição que nós estávamos, nos permitiu fotografar esta inesquecível paisagem. O limite, o ângulo do encontro, entre duas vertentes, do imenso chapadão, seu lado Leste X com o Sul. Incrível esses espaços.

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Aí estamos felizes reunidos frente a Igreja de São José do Barreiro. Não declinarei o nome de meus nobres companheiros. Foram centenas de quilômetros de trilhas, de paisagens, de perigos, de alegria: é ótimo. Parece-me que nesses momentos a adrenalina, inunda nosso sangue, estimula nossas endorfinas do sistema nervoso, e tudo é emoção, satisfação, e o mais importante o raro companheirismo, na atualidade.

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Estamos na única e famosa venda da vila, a do Zé do Mazico. Esta a primeira, instalação, depois ele reformou outra, com mais conforto, na outra esquina.

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Esta pitoresca e humilde igrejinha está na trilha da margem esquerda do Rio São Francisco, para a Cachoeira das Orquídeas. Ao longe a Canastra. São vales profundos, desolados e tortuosos, ao longo do caminho.

No tempo do garimpo, da riqueza, a fé em Deus era imperiosa, para o garimpeiro achar o diamante, a divina mão de Deus Quando achavam, queriam demonstrar sua fé, assim muitas edificações surgiram na região. Hoje, restam poucas que sobraram dos vândalos e descrentes da região.

Cachoeira das Orquídeas

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Esta é uma bela fotografia, de Any Leide, uma linda gralha-do-peito-branco. Em Goiás é chamada de espanta-boiada, devido ao barulho estridente que o bando faz, quando em uma árvore, dispersando todo gado.

Existe também a gralha totalmente azul, que é a ave símbolo do estado do Paraná, pois é a responsável pela multiplicação das araucárias em todo sul do Brasil. Ela se alimenta do pinhão da araucária, e dissemina a semente por toda a Mata Atlântica e outros rincões do sul. É da família dos corvídeos, são muito inteligentes. Já vi uma que entoava o início do Hino Nacional. Somente perde em inteligência, para os psitacídeos (exemplo papagaio).

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Do alto da encosta da serra podemos observar a exuberante mata galeria, onde está a Cachoeira das Orquídeas. Todo vale está florido, e no fundo da ravina o som da cachoeira, da vida ao ambiente.

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Na chegada somos recebidas por quilometro de flores perfumadas, da famosa Maria Jacinta. O perfume desta planta é inigualável, ela é muito comum nos brejos e se proliferam com muita velocidade.

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Todas estas flores maravilhosas foram fotografadas por Any Leide, minha entusiasta companheira de trilhas e viagens.

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Any tem paciência e cuidado com suas fotografias, aí estão algumas que ela tirou nas árvores da mata das orquídeas.

VALE DOS CÂNDIDOS.

O Vale dos Cândidos inicia-se a Este do Vale do São Francisco. A primeira vez que por lá passei, foi inesquecível. Havíamos arriscado descer pela terrível Garagem de Pedra, uma íngreme e empedrada vertente da Serra da Canastra, que termina no vale dos Cândidos. O quadriciclos com as 4 rodas brecadas, deslizava em certos trechos sem parar, dava medo. As motos cambaleando, a habilidade do piloto é que contava.

Chegamos à noite nas águas tortuosas do vale. Praticamente navegamos instrumentos e tentativas até sair o alto da Babilônia e na Igrejinha. Euforia para todos, pois daí para frente estávamos em casa.

Durante o dia quis conhecer o Vale dos Cândidos. No alto do Chapadão da Babilônia, saindo da Igrejinha se pega a primeira estrada a esquerda, e em curvas sinuosas chega-se ao vale. Lá encontramos pessoas especiais, em seu modo de ser, de falar e na hospitalidade.

Chegamos a esta casa, e fomos convidados por esta senhora para entrar e tomar um café. Tudo muito antigo e autêntico. Os tijolos da construção feitos a mão, século anterior.

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Inesquecível, a imagem da senhora nesta janela. Um quadro, uma relíquia do passado, que ali estava presente, nos conduzindo em pensamentos, nos idos tempos da região. Senti no olhar desta matriarca, toda a história do passado, de glórias, lutas e de esperança. Os tijolos da parede, cada um com seu formado, mostram ainda as mãos e o deu forma. É a história abstrata moldada na argila dos tempos passados.

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Este moinho de café tem mais de um século de uso, e atesta a autenticidade de toda a casa, das pessoas e do vale.

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Um momento inesquecível, tomar um cafezinho nesta cozinha. O fogão de lenha feito de piçarra. O café com sabores das lenhas que faziam o braseiro. Era o aroma das madeiras: o guapuruvu, a goiabeira, o cedro do campo e o alecrim. Os odores e o sabor do cafezinho nos trouxe a mente, lembranças deliciosas do passado. Das viagens por Mato Grosso e Goiás.

PERDIDOS NA SERRA DO CEMITÉRIO.

Raramente em minhas trilhas, pescarias, ou navegações, tenho lembrança de me sentir totalmente perdido. Contudo, sempre tem a primeira vez, foi esse dia. Eu a Any, acordamos de manhã, pegamos água e um lanche, para uma longa trilha. Como sempre muito animados.

Antes de sair de Delfinópolis enchemos o tanque de gasolina do quadricíclo (ATV), tínhamos 150 km de autonomia.

Na rotatória da saída resolvemos passar pela Cachoeira do Ésio, eram 10 km a Este de nosso caminho. Lá chegamos, era tudo muito lindo. A trilha do percurso, as árvores da mata galeria, os pássaros e a água, límpida rolando da Serra Preta. Uma satisfação, mas o espírito da aventura nos chamava, e lá fomos nós, novamente para a rotatória para pegarmos a Estrada Ecológica, até a entrada da Cachoeira de Santo Antônio e Cachoeira do Ouro. Desta cachoeira, tentamos um novo caminho e nos perdemos. Queríamos voltar passando pela Cidade de Pedra.  Perdemo-nos de forma bem preocupante. O GPS indicava uma direção, que seria um atalho, mas, este atalho, era pela Trilha do Cemitério. Que há tempos estava intransponível, e nós não sabíamos..

Depois de uns 5 km, a coisa ficou muito difícil mesmo. A Any teve que descer  do ATV, e ajudar desviar das crateras para podemos passar. Era uma dificuldade depois da outra, até e acabou a trilha mesmo, no pé de um morro.

Estudei o GPS, a Trilha do Céu (no cume da Serra) estava a nossa esquerda a uns 4 km no máximo. Saímos pelo mato, cortando valetas, roçando arbustos. Muita atenção, pois nessas horas, uma falha pode ocasionar desastre certo. Naquela área herma, seria uma penúria, nem posso imaginar… Olhei para traz, a Serra do Cemitério era linda, as erosões desenhavam na encosta, uma morfologia inigualável, e inesquecível, ainda mais pelo momento que estávamos passando.

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Fomos tocando pelo pasto, confiando como nunca no GPS, desviando cuidadosamente dos obstáculos. Eu e Any, nem trocamos nenhuma palavra, estávamos muito concentrados nos obstáculos da trilha.

Depois de quatro horas e meia de perdidos em trilhas mortas, no Cemitério, um momento de alegria e descontração. Eureca. Do topo do morro, avistamos lá em baixo a famosa e salvadora Trilha do Céu. Ao longe a Serra Preta delimitando o Vale do Rio Bateia.

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Como podemos ver, para atingirmos a trilha, não foi nada fácil. Um vale de descidas abruptas e subidas íngremes, cheias de pedras soltas. Mas a aventura, do perdido, ali terminou.

Contudo, tínhamos muito chão pela frente ainda. Não podíamos ir para Delfinópolis onde estávamos, pois havia uma ponte quebrada no caminho. Tínhamos que ir para o noroeste, em direção a Pedra Branca, e chegarmos ao sítio do Tio Zezito, para compramos gasolina. Depois rodar os 140 km de chão até Delfinópolis. Seguiríamos pelo vale da Babilônia, até a subida da Pedra Calçada.

Desceríamos a Pedra Calçada, e cruzaríamos todo o vale do Céu, uns 40 km mais ou menos. Chegamos bem a noite na estrada de São José do Barreiro para Delfinópolis, aí passaríamos pela cidadezinha de Babilônia, depois Olhos D`Água da Canastra, e finalmente chegamos a DELFINÓPOLIS. FIM DA AVENTURA.

OS MUITOS ASPECTOS DO COMPLEXO DA CANASTRA.

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Esta é a paz da Canastra. Onde a única briga que vimos foi de um canarinho, mas com ele mesmo, refletido no espelho da caminhonete. Esta fotografia, dos canarinhos, é fruto de muita paciência e dedicação, de minha mulher e companheira de trilha, Any Leide. Quando estávamos hospedados na Pousada do Eninho e de D. Gasparina.

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O passarinho foi fotografado a beira de uma pequena represa. É uma imagem maravilhosa, deste ardiloso pássaro. Ele constrói seu ninho, com ramos secos de taboa, formando uma concha, e os construí em ramos flexíveis, perto da superfície da água. Quando um animal tenta comer seus filhotes ou ovinhos, o ramo enverga e entra na água, espantando o invasor. Já presenciei essa sua  astúcia no Pantanal MT, as margens do Rio Miranda.

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Conhecer a Serra da Canastra é conhecer seus habitantes. Sua hospitalidade incontestável. Sua modéstia irrepressível. E a manutenção de suas tradições. Vemos nesta foto, uma dona de terras, gados, em um fogão feito de um cupinzeiro, fazendo um delicioso doce de leite, no tacho. Quando ela sai deste trabalho, vai ao quartinho de queijo, fazer com todo capricho e asseio, o famoso queijo mineiro da Canastra. Este momento foi uma “aula” de D. Gasparina, ensinando a Any, a fazer doce de leite em um fogão de feito de cupim.

Na entrada da Pousada, há um riacho, com um pequeno alagado, onde havia um casal de pássaros típicos destas propriedades, como vemos na foto.

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Esta é uma curicaca, é uma ave tradicional do interior rural de Minas e sul de Goiás. O fazendeiro não deixava ninguém espantar esta ave. Seu canto, diurno e noturno, enigmático e soturno, era sempre ouvido, quando qualquer pessoa se aproximava da casa da propriedade rural, avisando as pessoas da aproximação de alguém ou alguma coisa. Era o alerta, o aviso. Várias vezes pude constatar este fato, em Tupaciguara, no Vale do Céu, na cachoeira do Luquinha, entre outros lugares.  É só entrar na propriedade, ela ou elas começam cantar, de forma estridente.

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Este é um casal de patos selvagens, típicos da região do São Francisco, na região da canastra. Eles vêm de longe, para procriarem nesta região. Seu número tem declinado, por este motivo, todos têm muito cuidado para não molestá-los atualmente.

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Esta é a entrada da portaria. número 3, para visita a Cachoeira da Casca D`Anta. É uma área de grande força física e espiritual. A água caindo initerruptamente, de 180m de altura, dá uma impressão de “moto continum” impressionante. Depois rolando sobre matacões imensos, nos traz a memória as forças tectônicas incríveis, que modelaram o Complexo da Canastra.

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A Cachoeira Casca D´Anta é a maior queda do rio São Francisco e se forma quando o Rio da Integração Nacional deixa o seu “berço” na Serra da Canastra, MG. Localizada em São José do Barreiro (MG), distrito que fica a 38 quilômetros de São Roque de Minas. A queda é de180 metros. A cachoeira despenca de uma parede de rocha de cerda de 200 metros de altura. Devido a fenda que se abriu pela erosão do rio, que deve datar de 200 milhões de anos.

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Este é Rio São Francisco logo depois da cachoeira da Casca D`Anta. Ele está com pouco volume devido à seca da região. Água cristalina, corrente. Imaginar que ela não vai parar tão logo, seu caminho é longo, da Canastra ao Mar. Não sei por que isto me fascina tanto.

Do subterrâneo do aquífero, nasce brotando da rocha, caminha pelo chapadão e despenca. Caminha por milhares de quilômetros, e se mistura ao mar sem fim. Evapora, e em correntes de nuvens espaciais, caminham pela Terra, ao sabor dos ventos. Cai em chuvas dadivosas, fertilizando o solo, no solo se infiltra, formando novos lenções de água. É o ciclo da água, é a fonte da vida. O ciclo da vida está em todos os cantos pelo Complexo da Canastra.

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A Any, grande observadora, retratou esta reunião de gaviões caracará, lá no alto da serra da Canastra. Pertencem à família dos falconídeos. Passa muito tempo no chão, mas é um excelente voador. Na foto primeira vemos um bando de gaviões, esperando o urubu rei se refestelar no animal morto, para depois descerem e se alimentarem.

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No alto do Chapadão da Babilônia, ela fotografou esta cena impressionante.  O URUBU REI, que é 5 vezes maior que o caracará, mais imponente, e muito raro, está observando para iniciar seu banquete, na carcaça da vaca.. Esta foi uma das poucas oportunidades de fotografar uma ave como esta. Parabéns!

Na reserva do Cipó, filmamos uma ave de rapina desta, pegando um respeitável cascavel, e a levando para o espaço, depois de uns 50m de altura a soltou. O ofídio com a queda se esborrachou no chão. Então o experiente caçador pegou a cobra morta, e a levou para uma grande pedra, onde a devorou com toda cautela.

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O Lobo Guará é um dos animais mais procurados para serem vistos na Serra. Por ser muito “tímido” não é fácil vê-lo. É o maior canídeo da América do Sul, podendo atingir até 90 cm na altura. Suas pernas longas e finas e a densa pelagem avermelhada lhe conferem uma aparência inconfundível. O lobo-guará é adaptado aos ambientes abertos das savanas dos chapadões, sendo um animal crepuscular e onívoro, com importante papel na dispersão de sementes de frutos do cerrado, principalmente a lobeira.

Estavamos, eu, Any e D. Gasparina, vindo de São José do Barreiro, pelo Chapadão da Babilônia, quando ao por do sol, nos deparamos com um lobo Guará. Ele não se assustou, minha companheira o fotografou várias vezes. A Any desceu da S-10, e acompanhou o animal por mais de 20 minutos. Era o maior guará que eu já vi em toda minha vida. Fiquei meio sismado quando a Any, chegou muito perto dele, pois a noite já caia no alto do chapadão. Mas ele continuou andanto, soberto, ciente que era o dominante naquela região.

Nossa primeira viagem feita em 1995. Esta aventura foi ideia do Geraldo, o GG, meu irmão, que em anos anteriores já havia percorrido parte do Complexo da Canastra.

A estrada que estamos percorrendo, sai de Sacramento, Mg, passa por pequena cidade de Desemboque, entra na Reserva da Canastra pela portaria número 2, que fica a Oeste da Serra, e corta a SERRA DA CANASTRA em direção ESTE, até a portaria 1, em São Roque de Minas.  É lindo o trajeto que corta o espigão da serra, são 70 km de vistas maravilhosas,

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Esta foi nossa primeira viagem à Serra da Canastra. Silverado ZT 71. E o ATV, Bayou fazendo sua primeira viagem. Na primeira fotografia estamos no alto da Serra da Canastra cruzando um riacho que corre em seus vales. Na segunda, estou à frente da nascente do grande rio São Francisco. “Agora estão tentando mudar o lugar da nascente do velho Chico (o São Francisco) ”.

Introdução da Viagem: Quando chegamos na Pousa do Recanto da Canastra, em conversa com o Sr. Soares, ficamos sabendo de uma situação polêmica. Olham amigos o rio São Francisco não nasce mais na Serra da Canastra. Aventaram a ideia que ele nasce na cidade de MEDEIROS e seria então o Rio Samburá o verdadeiro São Francisco!  Neste caso o Samburá é que seria o Rio São Francisco e o atual São Francisco seria um afluente do Samburá.

Isso nos causou um grande constrangimento, pois até o Presidente Fernando Henrique Cardoso e o Presidente Collor já estiveram na nascente do rio São Francisco, no alto da Serra da Canastra, a 1200m de altitude, inaugurando uma imagem do santo: São Francisco. E visitando a nascente do famoso e importe rio!

Nossas viagens à Canastra poderiam ser consideradas quase uma rotina em atividades de trilhas e passeios fora de estradas, mas isto não é verdade. Pois existem inúmeros lugares, ambientes, e lugares esquecidos, nos chapadões que se sucedem que cada trilha é uma aventura. Única em nossas emoções. A cada viagem temos uma nova surpresa! Uma nova visão destes grotões infindáveis e sempre desconhecidos!

A viagem ao rio Samburá.

Dormimos e pela manhã, queríamos conhecer a região de Rio Samburá e a cidade de Medeiros.

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Acordamos no outro dia com o melodioso canto deste sabiá laranjeira, que por sinal vivia ao redor da casa, na maior tranquilidade.

“As nascentes” do Rio São Francisco.

Objetivo da viagem: Conhecer o Rio Samburá e as cidades de Bambuí, Iguatama, Arcos e outras pelo caminho.

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Onde esta seta vermelha está apontando é a nascente oficial do rio São Francisco. Fica no alto da Serra da Canastra a mais de 1200m de altitude. Corre uns 20km sobre a Serra e depois despenca da serra formando a belíssima cachoeira da Casca D`Anta.

Onde esta seta azul está apontando o local provável da nascente do Rio Samburá no município de Medeiros. Onde alguns estão querendo nomear como a verdadeira nascente do Rio São Francisco. Não faz sentido!

A seta verde mostra (em traçado vermelho) o trajeto do Rio São Francisco, depois da Cachoeira Casca D`Anta e sua passagem por São José do Barreiro, Vargem Bonita, Doresópolis, Iguatama, Lagoa da Prata, seguindo para o norte.

No mapa está o trajeto de 330Km que fizemos (em azul): São José do Barreiro, Vargem Bonita, São Roque de Minas, Bambuí, Iguatama, Arcos, Pains, Pimenta, Piumhi e voltamos ao início em Vargem Bonita.

É uma região maravilhosa como veremos.

 NASCENTE DO SÃO FRANCISCO:

A nascente oficial do Rio São Francisco, no alto da Serra da Canastra a 10km da cidade de São Roque de Minas, dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra.

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( Foto de 1996). Esta é para todos nós (SETA AZUL), a mina de puras águas, ou seja, a fonte onde nasce o Rio São Francisco. Na segunda fotografia, estamos: Eu, José Milton, à frente da estátua de São Francisco, inaugurada pelo Presidente Fernando Henrique, ao lado da nascente do Grande Rio. Não resta dúvida que é um lugar histórico e de recordações passadas e importantes, para todos nós amantes do Brasil e suas tradições.

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Estamos aí no sopé do Chapadão da Zagaia, no lugar que chamamos primeira rampa. Uma vista magnífica dos paredões da Serra da Canastra. Como um risco branco na escarpa, onde cai majestoso o Rio São Francisco de 180m de altura, dando origem à Casca D`Anta. Era um período de grande seca, este é o motivo da cachoeira estar com tão pouca água.

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Aí está a Cachoeira do Rio São Francisco. Na imensidão dos espaços ela parece insignificante. Estamos nesta fotografia a mais de 10km de distância, e é período de seca brava na região. Mas quando nos próximos ela torna-se magnificente em sua beleza. Pela erosão que o rio já realizou na vertente da escarpa, pode-se avaliar os milênios que está cachoeira existe, dizem em mais de 1 milhões de anos.

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Este o aspecto do Rio São Francisco em seu curso no alto da Serra da Canastra, neste ponto ele é limpo e majestoso, em suas águas cardumes de lambaris e piavas nadam sem medo, como se estivessem flutuando no espaço do precioso líquido. A mata galeria se reflete nas mansas águas como se fosse um espelho a eternizar o lindo quadro que se forma a seu redor.

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Este é o ponto final do Rio São Francisco no alto da Serra da Canastra. Deste lugar ele se projeta no vale, formando a Casca D`Anta. Ao longe no horizonte, pode-se ver o Chapadão da Babilônia. São espaços que se abrem em horizontes infindáveis. É incrível imaginar que da linha do horizonte, ao longe, até a próxima cidade são mais de 100km de descampados, compondo vales, chapadões, rios, cachoeiras e grotões inacessíveis.

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Estamos no rio. O ATV (quadricíclo 4X4) atravessando o Rio São Francisco, este lugar fica na Pousada da Limeira, a 9 km da cidade de São José do Barreiro. Nossa conotação e “amizade” com este Rio é de longa data e muito íntima. Pensar que alguém quer trocar seu nome, não nos faz nada bem. Além do mais, achamos que não tem cabimento uma atitude desta. Qual seria a justificativa? Qual seria o motivo? Acreditamos que é simplesmente uma polêmica política, para chamar a atenção da cidade de Medeiros, onde nasce o Rio Samburá.

Estamos saindo para São Roque de Minas. Vamos passar pelas lavras de diamante às margens do São Francisco. Na saída da Pousada paramos para estas fotografias, ao longe, nas nossas costas, estão os escarpados da Canastra, em cuja base corre limpo e encachoeirado o rio São Francisco.

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Recordações de muitas aventuras nos vêm à mente neste lugar. À frente da Igreja, descortina-se o vale do São Francisco. Seguindo os paredões da Canastra os contrafortes de muitas montanhas estão vistos ao longe, seguem o vale do rio até Vargem Bonita, onde o Rio São Francisco cruza a cidade e a estrada em uma ponte bem estreita, seguindo rumo NE, e depois de uma ampla curva e receber o rio Samburá ruma para o norte, cortando os estados de Minas Gerais e da Bahia.

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Estamos em cima da primeira ponte do São Francisco. Na primeira fotografia o  ATV atravessando o rio, na segunda fotografia estou com minha filha Carolina atravessando o Rio com a L-200, apenas queríamos curtir a emoção, de transpormos o São Francisco, o Velho Chico, por água sem a ponte.

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Esta foto é inesquecível. Estou com o grande amigo José Milton, que havia vindo de Belo Horizonte para fazermos está trilha.

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Em nossas viagens e afirmações temos que ser cuidadosos, pois acabei de dizer que a ponte passada era a primeira ponte sobre o Rio São Francisco. Não é verdade. Esta humilde pontinha que fica 500m após a nascente do Rio, é realmente a primeira ponte que cruza o Rio, ela fica na estrada que percorre o alto da Serra da Canastra. Ela fica a 9Km da primeira portaria do Parque, em São Roque de Minas.

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Esta seria então a segunda ponte do Rio São Francisco. Lugar de longas recordações. Essa fotografia diz muito para todos nós trilheiros. É o Rio que passa limpo e cristalino. A seguir, é a trilha desafiadora que cruzando o infindável Chapadão da Babilônia, caminho de cachoeiras, de belezas agrestes, trilhas de muitas ramificações, bifurcações, e lugares.

Se perder nestes lugares é muito comum, pois as opções são muitas. Quando nos perdemos, temos que cruzar grotões quase intransponíveis. Eram caminhos para carros de boi, que o tempo e a erosão os tornaram obstáculos difíceis de transpor.

Assim, por essas trilhas tem início ao imenso Chapadão da ZAGAIA.

Pedras Revolvidas durante décadas e décadas em busca de diamantes.

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São dezenas de quilômetros margeando o Rio São Francisco, onde encontramos montes e montes de pedras “roladas” e lavadas, nas lavras de diamantes do São Francisco. Percorri vários lugares das lavras, com certeza, um trabalho hercúleo em busca da fortuna, que para a grande maioria dos garimpeiros nunca veio. A mata galeria que margeia o Rio, destruída, suas águas contaminadas, só destruição. Felizmente há décadas, o trabalho dos garimpeiros foi proibido e lentamente a natureza se recompõe.

Nota: Segundo o senhor Soares o garimpo e os diamantes nunca trouxeram progresso ou bem-estar ao povo das cidades ribeirinhas deste vale. Eram homens famintos, maltrapilhos e na maioria bêbados. Faltava comida, era uma situação de miséria. Depois que o governo proibiu o garimpo, as coisas começaram lentamente melhorarem, muitos foram embora, os que ficaram voltaram para a agricultura e ao trabalho. Hoje não existe fome nestas cidades, as roças estão plantadas, as hortas verdes. O turismo tornou-se a mola propulsora de numerosas pousadas e hotéis, em todos os lugares.

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Neste ponto percebe-se que o Rio mudou de curso, ele passava onde nós estamos no momento, foi desviado ao longo das décadas passadas em busca do diamante. O barranco que aparece logo a esquerda era uma das margens que sobraram do Rio. Todo este pasto verde é de terras removidas e peneiradas. Mais ao longe na margem esquerda vê-se uma grande área de antigas lavras. Felizmente na curva do Rio a mata galeria se recuperou.

Lugares: Vista do alto da POUSADA DO SR. SOARES.

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Do alto assistimos a formação de um cúmulo nimbos imenso, no vale do São Francisco. A força da natureza nesses momentos é indescritível. O espaço preenchido de: energia. De luzes, acompanhadas de estrondos. Sons indecifráveis a perder nos grotões. A água em rodamoinhos fustigada por rajadas de ventos fortes e desconexos preenche todos os espaços. A pressão negativa da atmosfera,  nos dava sensação que tudo iria para o espaço, sugado pelo imenso cúmulo nimbos que dominava a região.

Esta imagem para mim é um quadro de recordações. Uma árvore impoluta no topo do observatório. O temporal vindo da Serra em nossa direção, com seu ruído branco, mostrando o aguaceiro que teríamos que enfrentar. A caminhonete S-10, nos pedindo para fugirmos do lugar, pois, havia uma forte rampa a ser enfrentada. Meu irmão GG sereno, parecendo um Buda a meditar nos acontecimentos meteorológicos que aconteciam em todo espaço ao nosso redor. Na realidade, se não fosse a íngreme rampa a ser vencida, eu teria entrado na condução e esperado o temporal passar. Mas, a idade nos torna previdente, seria um risco descer, no barro, pela ribanceira, assim, batemos em retirada.

As chuvas caíram impiedosamente, foram tão intensas que algumas erosões significativas se formaram nas encostas das Serras. No momento em que as tormentas caiam nestas erosões formavam cachoeiras que se não fossem tão preocupantes seriam lindos espetáculos da natureza. Toneladas de terra descem pelas encostas, encobrindo estradas, derrubando pontes e entulhando riachos com seus sedimentos.

Estamos parados na base da montanha. Mas o GPS ainda mostra uma altitude de 994,9m. Uma altura respeitável para nossos relevos.

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Tudo ficou escuro. O barulho dos trovões era ensurdecedor. A caminhonete vibrava pela força do vento. Galhos e folhas passavam com incrível velocidade. Em reduzida íamos lentamente carreando a S-10 pela trilha de volta à pousada. A trilha destas serras sempre exige cuidados. São rampas e declives íngremes, se sairmos da fina rota, o desastre pode ser de grandes proporções. Chegamos à pousada junto com o temporal que se abateu em toda a região.

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VIAGEM AO RIO SAMBURÁ: Fizemos eu e GG uma grande viagem em círculo na região para conhecê-la melhor, andamos 230km, e passamos por 10 cidades, cada uma com sua peculiaridade própria: 1. São José do Barreiro. 2. Vargem Bonita. 3.São Roque de Minas. 4. Bambuí. 5. Iguatama. 6. Arcos. 7. Pains. 8. Pimenta. 9. Piumhi. 10. Vargem Bonita.

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A primeira cidade, lógico, foi São José do Barreiro, de onde saímos. Esta é uma fotografia da segunda cidade que passamos, Vargem Bonita. No vale que se observa depois da cidade, passa o Rio São Francisco, cuja ponte mostrarei depois, ao final da viagem.

A terceira cidade, que passamos, foi São Roque de Minas.

Caminhando pelas estradas de terra, íamos apreciando a paisagem.

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Este é o caminho para Bambuí, passando duas vezes sobre o Rio Samburá. A topografia vai mudando aos poucos. O terreno tornando-se mais e mais plano. Depois da primeira fotografia, olhamos para traz e vimos já ao longe, o desenho inconfundível da Serra da Canastra, sua morfologia lembra mesmo uma imensa canastra..

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Depois que o governo Lula, iniciou a transposição do Rio S Francisco, eles se preocuparam com as nascentes do São Francisco. Colocaram estas placas pelas estradas, mas segundo os moradores, ficou somente nas placas e nada mais. Esta placa está logo antes do Rio Samburá e nela quem a fez, reconhece, logicamente, que o Samburá é um afluente do Rio São Francisco. Agora por politicagem.  Querem mudar a nascente do rio, depois de séculos de aceitação e velhos e sábios conhecimentos.

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Tirei esta fotografia do ônibus passando pela ponte do Samburá para podermos verificar como ela é bem estreita. Na segunda vemos o rio, olhando deste ponto ele não nos impressiona muito não. Mas, dizem que é muito piscoso. A polêmica agora é querer achar que este rio barrento é o São Francisco, pois nasce mais longe? Por ser maior? Não sei, acredito é falta de terem o que fazer para melhorar realmente a grande e importe bacia hidrográfica do Velho Chico. Agora?

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GeGe e eu ficamos no meio da ponte para uma fotografia, queríamos documentar nossa passagem por este lugar tão falado. Havia chovido a terra escura massapé, demonstrava a fertilidade do solo, após o Rio, que é um divisor de região. Em sua margem esquerda o Complexo da Canastra, na margem direita, terras planas, para uma boa agricultura.

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A primeira fotografia é a montante da ponte. Nestes pontos têm vários ranchos de pesca, o rio tem a água represada por uma cachoeira que fica logo a jusante da ponte. Realmente com estas águas represadas, em cursos de corredeiras e fundo de pedra, os pontos de água parada são ótimos para se fazer cevas e pegar os peixes. Tem razão os companheiros que conheço de gostarem de pescar neste rio.

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Esta é Curva do Rio. Um quadro de rara beleza. Ela está a montante da ponte por onde passamos. Deste ponto da curva foi que observamos os ranchos dos pescadores da região. É um recanto aprazível inspirando muita tranquilidade.

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Finalmente! Achei, este é um exuberante pé de fruta do lobo. Eu já tive oportunidade de ver um Lobo Guará comendo uma fruta desta, no vale do Rio Sapucaí, depois da cidade de Guará – SP. Tem uma pequena mata nas margens do rio e o lobo estava devorando a fruta às margens da mata, eram 5:45h da manhã, eu estava indo dar aula em Uberlândia. Jamais me esquecerei da cena, pois infelizmente, para grande tristeza minha, quando voltei da faculdade as 17:00h, o lobo estava morto no acostamento, havia sido atropelado, provavelmente após saborear a fruta e tentar atravessar a rodovia. Este arbusto, de fruta do lobo, marcou-me muito. Pois achava que o nome nada tinha a ver com o animal.

Esta é uma vegetação típica de transição entre os campos baixos e os cerrados, que é, ou melhor, era, o império dos lobos e veados catingueiros.

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Depois de 71Km de chão, buracos e barros, chegamos neste trevo, deste ponto para frente teríamos asfalto. À esquerda, a estrada logo chega a Bambuí e a direita vai para Iguatama e Formiga, foi o caminho que tomamos. Havíamos deixado para traz, 17 km a estrada para Medeiros, onde estão alegando ser a nascente do Rio Samburá, que querem dizer ser a verdadeira nascente do São Francisco. Mas, para nós não procede de modo alguma essa alegação!

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Depois de 34Km de asfalto, em uma região muito rica em terras e agricultura, chegamos em Iguatama. Surpreendeu-nos sobre maneira a placa na entrada  da cidade, A PRIMEIRA CIDADE BANHADA PELO RIO SÃO FRANCISCO! Mas, como? A segunda fotografia é a entrada de Iguatama.

Bem para nós a nascente do São Francisco estava muito longe, no alto as Serra da Canastra, ele já havia passado por São José do Barreiro, Vargem Bonita e Doresópolis.

Vargem Bonita.

Depois de mais de 200km, retornamos e achamos realmente a primeira cidade que o rio São Francisco passa dentro. Pois ele já passou no município de São José do Barreiro.

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Aí está Vargem Bonita é a famosa cidade onde numerosas vezes assistimos emocionados cardumes de peixes cruzando as límpidas águas do Rio São Francisco neste ponto.

A mais de 100 anos, para todos velhos moradores da cidade, esta é a primeira passagem do rio por uma localidade.

Não somente os aspectos geográficos chamam a atenção! Como ignorar a tradição? Como ignorar fatos históricos documentados há séculos na região?

Eu conheço esta placa há mais de 30 anos, qual o intuito de mudar? Não chega a megalomania de no Norte alterar uma parte do curso do rio? Um projeto bilionário, que mesmo que dê certo, muito poucos irão se beneficiar dele?

Esta ponte pode ser considerada como o início e fim de nossa viagem de 250Km.

Apêndice retirado do Google Map.

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Nestas fotografias do Google pode-se tirar a conclusão de que qual rio desemboca em quem: As setas vermelhas são do Rio Samburá e assetas azuis são do Rio São Francisco

UMA VIAGEM COM AMIGOS NA SERRA DA CANASTRA.

A SAIDA DE RIBEIRÃO PRETO: Saímos da casa do Gege as 21:00H pois esperamos o Zelão que vinha de São Paulo, por sinal veio bem rápido, hoje existem muitos radares fotográficos nas estradas e correr acima do limite é risco.
Nossa primeira parada foi em Itaú de Minas, para abastecimento das caminhonetes e providenciarmos alguns itens gastronômicos. O Fernandão, meu sobrinho, estava com a fome vencida e pegou firme; o Zelão, com a fome viajada pegou mais leve um pouco.
Saímos para Piumhi onde iríamos pegar a estrada para Vargem Bonita, São José do Barreiro entrada para a Serra da Canastra.
Quando saímos da estrada para Belo Horizonte (Br), que por sinal não é fácil de “navegar”, um trânsito terrível: Caminhões em pencas, as estradas com curvas de 50 anos atrás, do tempo que o máximo era o Jipinho 51, cuja velocidade de cruzeiro era 50 Km e os caminhões transportavam no máximo a “tara” 6.000Kg..

Entramos em Piumhi, passamos por dentro da cidade e proamos para a Serra da Canastra, tudo mudou, não havia movimento.
Deu tempo de olhar a azul tela do GPS e vermos que já havíamos percorrido 270Km, com uma velocidade média de 72Km/h, e na tela a rota descrevia uma curva em ângulo reto, para o norte, em direção a Serra. Para nós trilheiros estávamos em casa.
A lua cheia havia nascido a nossa direita, iluminando toda a paisagem e desenhando bem ao longe a silhueta da serraria, nosso destino 70 km à frente.
A estrada de terra estava como o diabo gosta, cheia de buracos e com um palmo de poeira, o companheiro Guilherme que sempre se manteve na minha cola, lógico se perdeu na cortina opaca e densa poeira, que formava um canudo com a nossa passagem, impossibilitando a visão. O ar estava parado, assim a poeira para se dispersar demorava muito, o Guilherme tinha que parar a caminhonete, esperar a poeira abaixar para não fazer voo cego e se deparar com uma vaca no colo, pois lá elas gostam de ficar no meio da estrada.

Ao longe em uma subida, vi, como se fosse uma gravata de mau gosto, cinza e branca, alguma coisa atravessada na pista, ao nos aproximarmos ela começou a mexer. Susto. Pé no breque. Ao nos aproximarmos mais, vimos uma grande cobra cascavel que atravessava a pista de terra, deixando na espessa poeira seu rasto fantasmagórico. Com isso o Guilherme e o Fernando se aproximaram, mas não deu tempo para verem o grande e peçonhento ofídio que havia atravessado a pista. Aproveitamos para parar e tirar “água do joelho”. O Fernandão com sua voz tonitruante foi logo dizendo: – Até que enfim vocês pararam. Estamos tentando nos aproximar a muito tempo.
– O que manda Fernandão?

–  Puxa tio o senhor está com os lanches! Solta a merenda para cá, até aqui somente comemos terra.
Olhei no banco de trás, e realmente, o lanche dos dois companheiros havia ficado também conosco, que negra, hein?

Saímos para tomarmos distância dos companheiros. Logo pegamos uma abrupta descida, era o vale do majestoso Rio São Francisco. Ao final de uma descida, íngreme e cheia de buracos, atravessamos uma modesta ponte, bem estreita mesmo, do Velho Chico, ainda próximo de seu nascedouro na Canastra. Mesmo com o plenilúnio, não foi possível ver o rio, pois naquele ponto ele passa muito fundo em sua calha que por sinal é toda atapetada de pedras e matacões. É bastante emocionante passarmos pelo Rio São Francisco, pois é o verdadeiro rio da integração nacional, mesmo sem tê-lo visto, eu e os companheiros, Zelão e Gege pudemos sentir sua força.
A subida à frente era bem íngreme, mas não foi necessário ligar 4X4.
Logo deixamos a estrada de São Roque de Minas e pegamos a esquerda para Vargem Bonita, depois de 20 Km uma forte e longa descida e ao final, novamente o Rio São Francisco, era uma comprida e estreita ponte, que termina na entrada da cidade.
Dia 04-08-2001- Sexta-feira.

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Não seria necessário dizer que os primeiros a pedirem o café da manhã lá no Sr. Soares são os micos. Pequeninos macacos que dão vida à mata.
Eles chegam em levas, são muitos e bem disciplinados.
Não tumultuam o ambiente, os líderes de cada grupo se alimenta, depois as fêmeas e os filhotes em seguida como sombras, caminhando pelos galhos, desaparecem na vegetação.

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Grande café matinal:, eu como sempre pronto, chamando a caterva. A fome do pessoal estava muito antiga e bastante viajada. Fabião e Mosca, campeões. Gege não estava muito bem para comer, mas quando lembrou que tinha seu vidro de bicarbonato na algibeira, atacou como gente grande mesmo.
Seu Soares somente ia passando e passando, e falando: – Bem esta turma é forte mesmo, hein doutor!

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As Silverados com as cargas chegaram muito bem. Mão de obra, vamos começar a descarregar as máquinas, pois as trilhas estão chamando.
Sempre temos numerosos lugares para visitarmos e por onde iniciar, gera constantemente discussões.
Nossa primeira opção foi a cachoeira da Casca D`Anta, minha grande curiosidade era ver como ela estava, devido a seca que atravessamos, como estaria a queda de água.

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A primeira parada após saímos da Pousada, é em São José do Barreiro. Uma pequenina cidade no alto da colina, perdida no tempo. Na fotografia vemos ao fundo a Serra da Canastra e no topo à frente, na elevação, o povoado. Aí estão, o Bayou a moto do Gege.
São José do Barreiro, não é lugar para se guardar o nome, não é lugar inscrito nos mapas, mas é um recanto para nunca mais se esquecer pois fica marcado no coração, quanta paz, quanta humildade e gentileza de seus habitantes.
Como apagar da memória, um recanto ao pé da Serra, que tem por divisória o início do histórico Rio São Francisco, pois no vale entre a cidadezinha e a Serra da Canastra corre o encachoeirado e ainda jovem o “velho Chico”?

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Guilherme atravessando o Rio São Francisco. A água estava tão transparente que podia-se ver o fundo, grandes pedras, como já me referi, atapetam o leito do rio. Essas pedras já foram várias vezes removidas, pois nesta área há tempos achou-se muitos diamantes, em todo percurso do rio.

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Aí está o Bayou sobre a ponte de madeira do Rio São Francisco. O Guilherme havia atravessado o rio, mais tarde eu criei coragem e atravessei também. Quando eu atravessei o rio com o quadricíclo ele deu uns pulos de arrepiar nestas pedras – Bem, tudo pela aventura e a adrenalina, que é bom para desobstruir as veias dos velhos.

O primeiro desafio, foi essa subida no alto do morro, na fotografia não representa o quanto à subida é íngreme, e com as pedras soltas pela rampa a fora é um desafio significativo subi-la sem tomar um chão.

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No início o embalo, na subida íngreme e cheia de pedriscos, as grandes derrapadas e alguns tombos. Uma moto rolou ladeira a baixo, mas nada impediu que todos chegassem no alto do morro, segue a fotos do aventureiros da canastra.

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Antes de chegarmos na cachoeira da Casca D´Anta, resolvemos dar um treino, nesta subida desafiadora e subimos no alto de um morro, que era o tira teima dos motoqueiros. Eu com um pouco de medo subi também, não se pode negar que dá um frio na barriga.
Aí estão: Bigui (Alexandre), Mosca, Zelão, Fabião, Gege e eu (Doutor), por sinal o decano da caravana.

Na fotografia pode-se ver bem ao longe na Serra da Canastra, a cachoeira da Casca D´Anta, aparece como um pequenino risco branco cortando a serra, no lado esquerdo de meu ombro, é lamentável essa seca inclemente, que assola o Brasil.

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Esta é a vista do lugar onde estamos na fotografia anterior. Um alto morro no contraforte da Chapada da Babilônia.

Esta caminhonete, de um aventureiro, se animou vendo nós subirmos a íngreme rampa, contudo, urrou, urrou; derrapou, saiu de lado…voltou…não desistiu… a poeira subiu…tornou a voltar….

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Arrancou novamente, agora muito feroz, saiu pelo capim, a nuvem de poeira elevou ao espaço…do alto do morro nós a torcida, o incentivávamos… vai…vai. Contudo, não deu. Somente sobrou o cheiro inconfundível de borrachas queimadas. Quando achamos que ele havia desistido! Não e não, voltou novamente, e dá-lhe pé na “tábua”, pelo meio do pasto tentou a subida..

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A caminhonete jogava pedras para todos os lados, andava de lado e pouco a pouco, metros para frente. O cheiro de pneus queimados já chegava até nós. A torcida era grande, mas infelizmente parece que a subida era bem maior.

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Tentou de tudo, deu ré, voltou no pé do morro, tentou vir pelo meio do pasto, muitos pulos, solavancos, pedras que volvam para todos os lados, mas…

Do pé do morro não passou… Desceu da caminhonete, rindo e subiu a pé mesmo até o topo.

– Bem pessoal, subi eu não subi, mas abri uma nova trilha lá na rampa. É isto mesmo, tentar sempre desistir nunca.

Continuamos a trilha para o alto do chapadão da BABILONIA.

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Estrada para a subida da Igrejinha parece a Trilha do Céu. Este sítio da foto parecia se instalar no meio do nada. Ao fundo da gleba uma queimada, deixando uma mancha escura e triste na paisagem. Era como se fosse uma ferida na terra desnuda. Somente o gado, no curral, que muito mal podem ser vistos na fotografia, animais já emagrecidos pela seca, que lentamente se deslocavam no curral, talvez em busca de uma palha seca, mas ainda palatável, é que nos trazia à realidade de que, aquilo realmente era uma propriedade rural e não um quadro que havíamos pintado em nossa imaginação. As fotos mostram ainda os numerosos ipês amarelos floridos.

O caminho para se chegar à Igrejinha não era fácil. A trilha vai serpenteando serra acima. O quadricíclo é bastante eficiente nessas situações, mas em muitas curvas ele sai de lado e precisa mesmo ser pilotado. Ele é semi-hidramático facilitando muito nos momentos mais críticos das trilhas.
O que mais chamou a atenção, no meio da seca terrível, eram os inúmeros pés de ipês amarelos, que estavam simplesmente maravilhosos, o amarelo genuíno da bandeira do Brasil, não tinham mais folhas e os galhos simplesmente desapareciam no meio da floração. As flores que caiam, e eram muitas, servem de alimento para os animais selvagens como: Veados, pacas, quatis e outros.
A busca pela Igrejinha nos mantém na trilha, passamos batidos pela Casca D`Anta, o magnetismo era para a Igrejinha, por ser um lugar místico e por sinal, o ponto mais elevado da região.
No complexo da Canastra a sensação de profundidade é incrível, as três dimensões do espaço, lá é possível ser tocada com o espírito e sentida com o coração.
Ah! Se eu fosse um ermitão, ah! Se meus compromissos desaparecessem, gostaria de vagar por aquelas trilhas, como as sombras das nuvens (cúmulos), que indiferentes às ravinas e escarpas, placidamente caminham pelos infindáveis descampados da Canastra.

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Esta é a Igrejinha. Há 10 anos tenho ido orar a seu redor. Nunca consegui a chave, nunca encontrei ninguém lá que não fôssemos nós mesmos. É um lugar místico por natureza, lá os sons se refletem nas distantes escarpas, e as sobras e escuridões se intercalam nos grotões das serras.

Um alemão, ao encontrar esta Igrejinha, perdida no meio destes chapadões, sentiu uma força muito grande e patrocinou sua reforma. Mandou construir também este pequeno barracão ao lado, para os viajantes se abrigarem do sol e da chuva sem necessidade de arrombar a capelinha e assim foi feito.
Passados alguns anos, o jovem alemão, saiu de seu país com a noiva e família e veio se casar neste lugar, por acreditar ser aí um lugar muito especial neste vasto mundo de meu Deus.
Estava eu nestas meditações e conjecturas, olhando as distâncias, observando as nuvens no azul do céu, quando o canto de um pássaro inundou o ambiente com sua harmonia, tão singela que todos nós ficamos em silêncio para ouvi-lo. Naquele momento, cada um pode sentir no fundo do coração a presença inquestionável de Deus, como o criador, como o pai, como a razão de sermos o que somos, ínfimos no espaço e infinitos no amor.

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Esta é a subida para a Capelinha, curvas após curvas, até a última na reta da chegada. Dois companheiros chegando mansos. Ao fundo, projetada na encosta da Serra da Canastra a sombra expressiva de uma nuvem, de cúmulo de bom tempo, a vagar lentamente pelos descampados da região, era como uma nave ciclópica que se metamorfoseando, descia pelo vale dos Cândidos.

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Eu, Gege e Zelão, estamos de frente para a Igrejinha, lá ao longe se pode ver a sombra de São José do Barreiro.
À noite as luzes de Piumhi, aparecem bem distintas no horizonte distante.
Na foto eu e Gege estamos mais de lado, em relação à capelinha, mas ainda na frente da igrejinha, na nossa retaguarda a estrada e o início do Vale dos Cândidos, como nesta encosta, no sábado à noite eu vimos o Lobisomem da Canastra acho importante localizar o lugar. Bem, a história deste fantasma fica para o fim.

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Bem aqui estamos todos atrás da Igrejinha:

Pode-se ver o solo queimado e ressequido, é incrível a recuperação deste solo arenoso e queimado. Com as primeiras chuvas, há uma brota geral de toda a vegetação. Muitas áreas ficam por centenas de hectares recobertas de lírios azuis dos campos de altitude, é maravilhoso.

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Aí estou com o Bayou. Estas campinas douradas, com ondulações ininterruptas e infindáveis, nos dão uma vontade louca de andar. Caminhar sem destino e sem parada. Vontade de surfar nas ondas da macega suavemente, para que o caminho nunca chegue ao fim.
A parada, a fotografia, é a concretização do momento e a cristalização de uma emoção, caso contrário, isto seria esquecido como tantos outros momentos de pura adrenalina que já passei.
À distância tudo se confunde, e as poeiras das motos traçam trilhas no horizonte, como se fossem as trilhas de condensação deixadas por pequenas naves terrestres. Visualizam-se assim rotas. Localiza-se distâncias e caminhos, aquilatando-se, assim os infindáveis espaços.

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Sobe-se pelas encostas, depois se desvia das pedras e dos cupinzeiros buscando o melhor caminho para o retorno. Nestes momentos a máquina e o corpo têm que manter perfeito equilíbrio, senão a gravidade leva a melhor, e o tombo é certo.
Estou aí descendo uma vertente no meio do Chapadão da Babilônia, para o vale que delimita a Serra, onde está a Igrejinha. A guardiã da Canastra! Tudo era dourado, a luminosidade incrível em um cenário de rara beleza, é olhar a foto e imaginar a beleza do vale.

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Não parece na fotografia, mas esta descida era muito íngreme mesmo, o capim muito alto às vezes esconde grandes pedras que nos toma a direção dando um arrepio dos bem fortes.

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Depois deste trajeto chegamos na já famosa Casca D`Anta. Antes, contudo tenho umas considerações do caminho a relatar: A escarpa que se seguia após essa linda encosta, era realmente uma trilha de muita dificuldade, pelo tamanho das pedras, e as erosões imensas, que têm para se atravessar. É importante ter muito cuidado neste trecho de trilha.

Subindo o Rolador.

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Subida do Rolador para o Chapadão da Babilônia. Neste momento a máquina sofreu bastante. As erosões eram muito grandes, com muita dificuldade para a condução.

Depois da subida do Rolador, no alto do Chapadão da Babilônia existe uma bifurcação, que se seguindo reto, a estrada sai na descida da Pedra Branca, virando-se para a direita, a estrada depois de 20 Km sai na Igrejinha, e mais 20 Km sai na cachoeira da Casca D`Anta, em uma descida vertiginosa. É sempre muita emoção.

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Sente-se muito pequeno neste lugar. A altura da Serra da Canastra, de mais de 210m, impressiona muito. A erosão da água na encosta da Serra, abrindo uma fenda muito expressiva na silhueta da montanha, nos faz pensar nos 10 milhões de anos destes acontecimentos geológicos e nós passamos por esta vida tão fugazmente, que realmente não temos o direito de mudarmos o ritmo da natureza.

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Com maior aproximação pode-se constatar como o Rio São Francisco está com pouquíssima água. Nunca em tempo algum eu vi a cachoeira com essa quantidade de água.
É o fogo das queimadas, é a terra arada, é a mata galeria destruída, é a ecologia abandonada, é o homem em perigo e o grande perigo que é o homem.
Aí está o retrato de nosso tempo, é a água que falta, é a energia que gasta, é a poluição que devasta, é a vida que passa. Passa a vida, passa o tempo, nós muitas vezes sem tempo para ver a vida passar.

Cruzando o Vale dos Cândidos: Para se atravessar o vale, passa-se uma mata galeria que acompanha um empedrado riacho, o lugar, a noite nos pareceu sinistro. Adiantei uns quilômetros, e parei para fotografar o invencível “off road” do companheiro. Na espera fiquei ouvindo os sons da mata, o ruindo branca da corrente do rio, roçando as pedras do leito irregular da “trilha”.

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A noite havia chegado mansa, sorrateira mesmo, somente me dei conta disso, na solidão desta passagem pelo rio no Vale dos Cândidos. Tínhamos mais de 50 Km de chão, até São José do Barreiro. Tínhamos que subir uma trilha de 30 Km até a Igrejinha, no alto do Chapadão da Babilônia, depois descer 900m até a Casca D`Anta, aí mais 10 Km até o destino. Era pura emoção, adrenalina nas veias, equilíbrio na mente.

No outro dia, novos rumos, renovando emoções. Esta é uma fotografia muito importante. Estamos aí descendo uma difícil trilha, de uma escarpa do Chapadão da Babilônia. Grandes erosões, pedras e mais pedras na trilha, necessário muita perícia para que não ocorra um acidente.

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A trilha inicia no topo oeste do Chapadão. Ao longe se descortina a represa de Peixoto. Para a direita desta foto o caminho leva para a Serra das 7 Voltas. Estávamos portando voltando, direção Este, retornando a São José do Barreiro.

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Toda essa trilha, é uma sucessão de dificuldades e de incríveis cenários, de uma beleza e profundidade inesquecível.

A trilha terminou na pousada do Sr. Soares.

O LOBISOMEM DA CANASTRA
Sérgio N. M. Lima.

Estávamos no alpendre da Pousada Recanto da Canastra do Sr. Soares.
Eram 21:00h, o vento rugia forte na Serra da Canastra. Da pousada podia-se ver a tênue luz da pequena cidadezinha de São José do Barreiro.
A prosa era animada demais, pois havíamos feito muitas trilhas, e assim sendo fatos e boatos não faltam para serem contados. Havíamos jantado na cozinha, ao lado de um grande fogão de lenha, uma saborosa leitoa com todos os acompanhamentos que “minas” muito bem sabem fazer.
No momento em que uma lua cheia, incrivelmente grande, e maravilhosa iluminou toda a Serraria, a conversa virou para o sobrenatural. O clarão da lua por trás das árvores, desfolhadas pela seca, contrastava galhos retorcidos e despertava a imaginação.
Lobisomem, mula sem cabeça, negrinho de olhos verdes brilhantes do São Francisco e até disco voador estava rolando na conversa.
Eu relatei ter visto um disco voador, há anos lá na Serra da Mantiqueira e que no alto da Igrejinha seria o ponto ideal para termos um novo contato com um OVNI.
Não precisou mais nada. A turma se arrepiou e em poucos minutos estávamos todos com nossas roupas próprias para retornarmos no alto da Chapada da Babilônia, pelo caminho que margeia o Rio São Francisco.
Fernandão, o Mamute, falou que sua moto não tinha farol assim teríamos que ir de parelha para eu ir iluminando o caminho para ele. Saímos na frente. Íamos sair aos poucos devido à poeira que estava incrivelmente espessa.
Mandamos brasa. A noite linda e gelada, mesmo com todos os equipamentos o vento frio ainda passava pelo capacete.
Em uma curva, no meio de uma mata galeria, as margens do São Francisco, o facho do farol iluminou uma cabeça de boi ensanguentada no meio da estradinha em uma pronunciada curva. Uma visão assustadora, à noite, uma cabeça de boi, com os olhos vidrados olhando para o nada e o sangue escorrendo pela poeira, traçando finas raias vermelhas. Não era para menos, o susto, o espanto, que eu e Fernando tomamos.

Brecada, expectativa, tocamos lentamente, ao completarmos a curva, um espetáculo grotesco, dois homens descarnando um boi, no meio da poeira. Passamos ressabiados, eles nem se mexeram ou levantaram o rosto.
Incrível, à tarde quando passamos pelo caminho aquele boi, por algum motivo, já estava morto no meio do caminho.  Mundão louco por esses lados.
Depois de 30 minutos de “marcha forçada” estávamos lá no alto do Chapadão, na Igrejinha novamente.
No início, ouvia-se somente o agudo e ininterrupto barulho do vento varrendo distâncias. Logo depois bem ao longe, duas luzes, ziguezagueando pelos meandros das curvas, logo depois outras mais, o barulho das motos quebrado a harmonia do lugar, nos mostrava os companheiros empenhados na trilha da Igrejinha.
Chegaram turbulentos. Depois foram se acalmando. O Gege viu um satélite em rota equatorial. Alguns grandes aviões cruzaram o espaço. A Serra fica na rota da represa de Furnas, as aeronaves que vêm do Norte (USA) geralmente usam esta rota para o aeroporto de Guarulhos.
Depois de certo tempo, e muito a propósito, a esposa do Veneziano, com seu jeito peculiar sugeriu ao grupo que fizesse silêncio para ouvirmos a natureza.
No início o barulho do vento, com aquele ruído branco fazia todos outros sons desaparecerem, com o passar do tempo o ouvido se acostuma e começamos a ouvir outras vozes da natureza.
Uma coruja caçadora perseguindo um rato, com seu canto fúnebre. O noitibó ou curiango esvoaçando atrás dos insetos e assim por diante.
Repentinamente começou um barulho “sui generis” eu nunca havia ouvido antes. Fiquei na escuta. Não era minha imaginação era um ruído muito bem definido e estranho.
Na minha mente parecia a alma do boi morto na estrada se debatendo na ravina a nossa frente, nestes momentos parecia eu ouvir o chifre do boi ensanguentado cavando a terra. Como se ele tivesse sido atropelado por um de nós e voltado para justiça. É a imaginação funcionando no meio da noite. É a mula sem cabeça. É a cabeça do boi. É o ruído do medo ampliado pela imaginação. Temos em nossa mente um medo atávico do tempo das cavernas.
O relógio digital de alguém tocou, era uma hora inteira, 24h00minhs, não sei e também não importava, naquele momento. Olhei para o Gege ele também havia escutado. Os outros ficaram estarrecidos e francamente não sabíamos ou era.
Levantei, amedrontado, e pé ante pé, me dirigi para a ravina para ver o que era o rouco ruído, que ora era alto, ora parava, ora era em um lugar ora no outro.
Ao chegar a beira da ravina, arrepiei. A lua, maravilhosa e muito clara, iluminou um escuro cupim, quando prestei atenção o cupim começou a andar. De repente eram dois cupins andando, depois de um momento se juntaram em um somente e de escuro ficam brancos.
Estarrecido, fiz sinal para o Gege vir, ele veio e mais um pouco da turma. Ficamos todos boquiabertos com aquilo que víamos.
Houve um momento que o cupim aumentou de tamanho e parecia ter chifre, era realmente de arrepiar.
Não se descreve o sentimento nesses momentos.
Eu e o Biguí, fomos até o quadricíclo, e o empurramos até a ravina para acendermos o farol de milha e vermos com o facho se realmente seria um lobisomem, o Lobisomem da Canastra.
Quando o facho iluminou a ravina, nossa decepção, eram dois grandes tamanduás bandeira abrindo e comendo cupins nas plácidas campinas da Canastra.
Bem se não existisse a luz seria um causo real de lobisomem da Canastra, visto por uma caterva de machões.

O Bando de “Calapalos” da Canastra. Que se emocionaram   com o lobisomem. Assim nascem as lendas, do tempo das lamparinas.

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Olhem bem, com muita atenção, a alegria da caterva depois que o lobisomem se transformou em dois tamanduás.

VIAGEM A SERRA DA CANASTRA II

VIAGEM A SERRA DA CANASTRA: Delfinópolis, São José do Barreiro, Cachoeira do Quilombo, Delfinópolis.
12-08-2005.

Esta viagem a Canastra foi planejada pelo Companheiro J. Merli, como sempre muito bem elaborada. Iríamos percorrer a Trilha do Céu, descer até o Vale do Rio Quilombo, subir a Pedra Branca e retornarmos pela mesma trilha.

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Grupo liderado pelo Merli.: Nesta fotografia ver ao longe a Serra Preta, entre esta trilha e a Serra Preta corre o Rio Bateia. Segundo aos antigos moradores, muito ouro e pedras preciosas foram retirados deste vale, daí seu nome.

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Esta fotografia do grupo foi tirada por mim no alto da trilha do céu, uma das mais lindas paisagens existentes, pelas centenas de caminhos que cruzam a grande Região da Canastra. Ao fundo vemos a imponente Serra Preta. O grupo está olhando para a distante e azul represa de Peixoto, um panorama também inesquecível.

O GPS
ONDE ESTAMOS, PARA ONDE VAMOS: No complexa da Canastra.

Realmente são tantas trilhas, em numerosas serras e chapadões, que sempre nos perdemos na beleza inquestionável desses lugares. Andamos. Andamos olhando para o GPS, e as vezes sabemos o rumo, mas encontramos vales intransponíveis, que nos faz por momentos perdermos a rota.

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Esta fotografia do satélite é bastante importante, pois, nos dá uma localização geral do Complexo da Canastra. Quando caminhamos pelas trilhas, não resta dúvida, ficamos um pouco desorientados, esta fotografia para mim deu melhor sentido de direção de nossas andanças por todas aquelas regiões.

Nesta fotografia do google, vemos: 1. A Represa de Peixoto. 2. A direita, margem direita da represa, A Serra Preta. 3. A segunda Serra é o Chapadão da Babilônia. 4, É o Chapadão da Zagaia.

Considerações:

1.Trilha do Céu, passa pela crista da Serra Preta. 2. Vale da Babilônia, fica na parte norte, entre a Serra Preta e o Chapadão da Babilônia. 3. Vale do Céu, fica na parte sul do mesmo vale, depois da Pedra Calçada. 4. Vale dos Cândidos e Vale do São Francisco, fica entre o Chapadão da Babilônia e o Chapadão das Zagaia. Existem outras localidades como: Gurita, Serra das Sete Voltas, Serra do Cemitério, Trilha dos Canteiros.

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Maior aumento da Serra Preta próximo a Delfinópolis. Em uma fotografia de satélite. Podemos constatar as dificuldades que seriam dizer que se conhece muito bem a região. Quantos meandros existem? Quantas furnas entrecortadas de ravinas e paredões abruptos inacessíveis a todos nós. Provavelmente existem grotões conhecidos apenas pelos moradores da região.

Estas serras têm várias divisões, espinhaços, vales, cada lugar deste recebe um nome específico e regionalista. Por exemplo: A Serra Preta, ao norte de Delfinópolis é composta de no mínimo 4 Chapadões, cada um no local recebe um novo nome. Por exemplo, da pousada da Regina, vê-se uma maravilhosa serra, que ela não chama de Serra Preta.
Conhecemos as trilhas e imaginamos paisagens longínquas, caminhamos por terras longes, marcamos nossos passos, mas quando comparados ao vazio de nosso conhecer, temos ainda muito que andar.
Acho que assim é nossa existência, por mais intensa que seja nossa passagem por aqui, seria ainda um traçado indelével no grande mapa do tempo.

Saída de Ribeirão Preto, as 15:30 do dia 11-08-2005.

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Estamos no posto da saída, onde esperei os companheiros, que atrasaram um pouco, o que é raro. Estavam com uma Parati e eu com uma Quantum, puxando as carretas.

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Aí estão os dois ATVs, prontos para as trilhas programadas e as que serão descobertas. É inacreditável o que estas máquinas são capazes de fazer. Para aguentar o piloto têm que ser realmente resistentes e suportar trilhas acidentadas. Como toda máquina, precisa-se de muito treino para pilotar, de forma correta estes quadriciclos, depois de dominados, são de uma versatilidade invejável, e de uma resistência excepcional.

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Chegamos a tempo de assistir este belo espetáculo da natureza. O pôr do sol na represa de Peixoto, durante a travessia da balsa. Como sempre digo, o Brasil é riquíssimo em belas paisagens, em momentos maravilhosos, basta saber olhar. Somente eu e um companheiro, descemos do carro para apreciarmos embevecidos estes momentos, onde a noite mansa e suavemente, empurrava o sol no poente. O astro que parte, deixa para traz quadros de beleza indescritível onde se mesclam: luzes, cores, sombras e escuridão.

A noite fomos jantar, felizmente achamos um restaurante muito simples, mas que nos serviu uma excelente comida mineira: Arroz, feijão, abobrinha, quiabo, ovos fritos, linguiça e carne de leitoa assada (o quartinho traseiro), feito no forno de lenha. A hospitalidade mineira é inquestionável.

Saímos pela estrada rumo ao Claro, o destino inicial Cidade de Pedra, Trilha do Céu.

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Primeira fotografia da trilha logo depois da subida do Claro, a uns 5Km da estrada de Delfinópolis para S. João Batista do Glória. Estamos em direção a Trilha do Céu. Passando pela Cidade de Pedra, estava com muita saudade destes lugares. Infindáveis serras, subidas se perdendo em curvas íngremes, a poeira do caminho traduzindo séculos de rodas de carroções e cascos que por ali passaram, em um caminhar lento de dias e dias de marcha.
A vegetação, de pequenas árvores retorcidas, de casca grossa e folhas enceradas. A arnica, o barbatimão, a fruta do lobo e o capim tipo barba-de-bode, essa é a vegetação típica destes chapadões.

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Primeira parte as subidas da Serra Preta. Mostrando um lindo vale entre a Serra Preta e a baixada que termina na Represa de Peixoto. Ao longe podemos ver a trilha por onde nós passamos, um lugar maravilhoso para se fazer trilhas e admirar paisagens inesquecíveis.

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Ponte depois da Fazenda onde passamos um riacho, logo a frente começa a subida propriamente dita da Trilha do Céu. O Rio Bateia começa aparecer a direita desta subida?

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Início da trilha do Céu, o lugar onde o Marcelo subiu de moto por esta trilha que sai aí pela esquerda e nos encontrou lá em cima na frente? É uma trilha própria para ser subida por cabritos com ferradura e loucos de moto.

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Parte já alta da trilha do Céu, no vale formado pelo famoso Rio Bateia, no funda a Serra Preta. É uma região maravilhosa, e sempre que passamos nesta trilha paramos aí para fotos e confraternizações.
Como se sabe bateia é uma gamela que se usa para garimpar ouro e diamantes nos rios. Podem-se ver ao longo deste rio, os sinais que ficaram, de tempos passados, da atividade de faiscadores à cata de diamantes. Isso ocorreu há mais de 3 séculos, os sinais presentes são quase indeléveis mais estão lá.

Os principais são: As barrancas dos rios sem suas camadas sedimentares originais, toda margem foi virada e revirada; a mata galeria dessas veredas há muito não existem mais. Os rios que corriam em meandros já não têm mais seu curso primitivo.

Naqueles tempos, descreve Mario Palmério, em seu livro No Chapadão do Bugre, estes imensos chapadões e veredas eram regidos pela lei dos mais fortes. A lei era o Trabuco, o Bacamarte e os afiados punhais de Damasco.
Hoje estes rios correm mansos, mas em tempos idos suas águas eram turbulentas e por vezes tingidas de sangue.

Deixemos o passado sepulto e vamos ao presente, de aventuras e alegrias.

Imagens que nos faz recordar.

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Início oficial da Trilha do Céu.
Estes são momentos mágicos. Saímos de Delfinópolis com o espírito ainda carregado, tenso e ansioso. Parece que algumas coisas não vão dar certas! Alguma moto vai quebrar, não sei bem definir esse sentimento. Mas, quando paramos neste ponto, nos despimos de todas essas ansiedades e expectativas, parece que o grupo se aglutina, o pensamento é como fazer a trilha com a maior emoção possível. Não nos preocupamos com o tempo, queremos ver o que tem para frente, cada curva uma emoção, cada descida esburacada uma aventura, cada passagem uma conquista. É o espírito do trilheiro & aventureiro.

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A 10Km à frente vi esta paisagem, tão linda em sua agressiva aparência, pelo que ela nos conta. Não resisti parar e fotografar.
Terra ressequida e queimada. A seca exaure toda a água do pedregoso e ácido solo. Nas baixadas e vales onde os moradores criam o gado as pastagens desaparecem em uma canícula que se ressecam ao sol. O gado nos vales não têm mais o que comer.
Então os moradores, seguindo as técnicas de seus ancestrais colocam fogo nos espinhaços (serras) e levam o gado para lá. Aí o milagre do capim nativo ocorre, principalmente o barba-de-bode. Não se sabe de onde tiram energia e soltam uma brotação verde e muito nutritiva, que mantêm o gado durante todo período da seca. Vi numerosos rebanhos pastando, no negrume do carvão das queimadas, pastando os ralos brotos verdes da vida no Complexo da Canastra. A verdade que a média é de ½ cabeça de gado para cada alqueire mineiro (48.000 metros quadrados).

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Uma caravana de aventura, uma plêiade em busca de emoções. É muito lindo e saudoso, rever esse quadro. Móveis, lentos, juntos, cuidadosos, pela agressiva trilha. O roncar dos motores a dar sons nos abruptos escarpados. Nosso comboio, segue cuidadosamente pelas trilhas, saboreando o ar puro das alturas (1380m), as belezas da paisagem. Contudo muito atentos, contornando grandes buracos de erosões passadas, pedras que rolaram pelo caminho, como obstáculos, a nossa intromissão, nas intimidades desta intocada natureza.

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A esquerda desta fotografia tem uma passagem particularmente difícil, enquanto esperamos os veículos manobrarem na passagem pelas erosões, fotografei a distante imagem do famoso Morro do Almoço. Imagino em tempo idos, os jagunços, os aventureiros, os catadores de diamante cruzando essas paragens infindas. Os cavalos deviam resfolegarem nestas íngremes subidas, soltavam-se as ferraduras, escorregavam nas pedras sobre o peso das bruacas cheias. A sede e a fome deviam ser companheiras constantes nestas sucessivas veredas e chapadões. Deste ponto até a região de Araxá, Diamantina, Chapadão do Bugre e os grandes Sertões eram meses de árduas caminhadas…. Na maioria das vezes iam com carregamentos de víveres e ferramentas básicas, sendo o sal a mercadoria mais importante.

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Morro do almoço. Quantas recordações deste lugar. Acredito que fomos uns dos primeiros a subir este morro. Neste primeiro dia o Fabião levou um belo tombo subindo pela sua encosta, e Gege (papai) ficou preocupado de seu filhinho ter machucado…incrível como o tempo passa.

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Desci para me encontrar com os companheiros, e ainda deu tempo de fotografar o grupo distante lá no alto do morro. As distâncias nos enganam nessas trilhas, os jeeps e motos no alto do morro, parecem como pequenos pontos distantes e perdidos no espaço.

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Esta é uma das visões extraordinárias do final da Serra Preta, vendo o início do Chapadão da Babilônia. Subimos no chapadão, bem mais à frente, pela subida da Pedra Branca.
Estas matas que acompanham os riachos de pequenas ou grandes nascentes de água são chamadas de Veredas, onde crescem os buritizais, (Guimarães Rosa), rodeados de sapezais, infelizmente nas veredas da Canastra os buritizais já se foram: transformaram-se em: currais, cercas, lascas e tudo mais que os antigos moradores precisavam construir.

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Depois de contornarmos uma encosta de trilha bastante ruim, tivemos uma visão maravilhosa da subida da Pedra Branca, ao longe, no Chapadão da Babilônia, esta chapada termina na subida do Rolador em São José do Barreiro. É uma região incrível, de contrastes múltiplos. Faz 10 anos que andamos por estas trilhas, cruzamos os chapadões, desviamos de seus grotões, escutamos suas lendas, mas ainda temos muito que ver e conhecer. Este “Sertões das Gerais” guardam numerosas histórias, de desbravamentos, destruição e sobrevivência.

Destruição, crime ecológico, com a própria presença do homem. Como explicar a morte deste rei da Canastra. Deste mamífero, inocente, insetívoro pacífico: O Tamanduá Bandeira. Achamos esse animal o habitante símbolo dos cerrados e campos gerais do Brasil. Vê-lo morto, assim na trilha, foi um constrangimento para todos nós. Nos perguntamos: Quem teria coragem, de assassinar um animal como este? Não tem resposta a essa pergunta.

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Caçadores assassinos, bandidos mesmo, mataram este maravilhoso e raro exemplar de Tamanduá Bandeira, apenas com intuito de retirarem sem rabo (a bandeira) para a venda como um raro exemplar. O crime havia ocorrido a pouco tempo, o sangue brotava da amputação, o animal ainda não apresentava rigidez cadavérica e os abutres ainda não o havia localizado. Foi a única sena deprimente de toda nossa trilha no complexo da Canastra.

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Eu e Marcelo paramos esperando os companheiros descerem uma trilha de grande dificuldade, aproveitei para tirar esta importante fotografia do início do Vão da Babilônia, que se perde na bruma seca das distâncias da região.

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Esta é passagem bem difícil que me referi. Praticamente esta descida simboliza o fim da Serra Preta e da bela Trilha do Céu. Precisa de muito conhecimento para passar por esta descida, pois é escarpa para os dois lados, aí não pode haver erro nem vacilo nenhum.

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Essa Igrejinha é um marco em nossa rota, ela fica no final da Serra Preta. Tornou-se quase uma parada obrigatória para mim, pois o caminho que saia pela sua frente, subindo pela trilha do Céu, praticamente desapareceu, estava ficando tão ruim que há tempos cheguei a tombar (de leve) meu ATV na subida, e tive que me virar sozinho, pois meu companheiro estava “batizando” a referida capela.

Por que esta igrejinha é importante? Já passamos aí, tarde da noite, com chuva forte, cheios de dúvidas e emoções. Buscando novos caminhos, passando por um riacho, que com a chuvarada era um rio. O Fernandão, meu sobrinho, acelerou forte no Rio, e errou a estrada, quase saiu com uma cerca e uma vaca no peito e se espatifou no barro, no escuro da noite. E gritava: — Acode aqui, a moto está em cima de mim! Era muito chuva, barro, escuridão e gritos…
São tantas as lembranças, que partem deste lugar…e elas continuam vivas em meus pensamentos.

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Depois da porteira da Igrejinha, avista-se, mais perto, a famosa subida da Pedra Branca. Em 1994 com uma D-20, preta, nova, sem tração, incentivado pelo arrojado e destemido GeGe, meu irmão, tentamos subir aí, com chuva. Não conseguimos subir mais que 100m, e o mano gritava: — Vai, meu irmão que dá…
O motor urrava, os pneus já cheiravam queimados. Ele insistia:
— Vai, meu irmão que dá…
— Vai que dá é para cairmos lá no despenhadeiro. Você é louco GeGe. — Eu sou louco! Mas você é frouxo, meu irmão, se sou eu…
Votamos, para encravar lá no fundão do Vão da Babilônia. É a aventura!

Saímos da igrejinha, todo o comboio junto, como sempre eu fiquei o último da fila. Logo que passamos um sítio do Zezito, 3 Km à frente encontrei um companheiro, andando com a moto muito devagar, quase parando. Vi que não era normal. Cortei a macha, fiquei na observação. Ele não saia do lugar. Aproximei-me com calma, pois não tenho muita intimidade com o companheiro.

— Não sei o que essa moto tem, não anda. A roda da frente está travada, não gira.
Tentei virar a roda, mas realmente o freio estava travando o disco. Não conseguimos nada.
Dei um gás no ATV e fui encontrar o comboio já subindo a Pedra Branca. Todos pararam e o fomos dar recurso ao amigo.

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Está a terrível subida da Pedra Branca. Ao fundo o Vale da Babilônia.

Fui acompanhando o motoqueiro, depois de uma das primeiras e íngremes curvas da Pedra Branca, a moto dele escorregou em uma erosão e ele tomou chão. Eu o ajudei e dei sinal para os Jipes que vinham atrás pararem, pedimos recurso.
Ao final da grande subida da Pedra Branca. Parei, e sentei-me. Os companheiros passaram e seguiram caminho.
A vista neste lugar é magnífica. Os vales perdem-se nas brumas das distâncias. Uma suave brisa resfriava os motores dos quadriciclos, que estalavam ao se contraírem. Conversamos um pouco, amenidades.
Eu distraído com o extraordinário lugar deixei-me ficar por mais um pouco de tempo. Neste lado do Chapadão da Babilônia, onde eu estava, uma corrente de ar ascendente, propiciava a um bando de abutres, voarem em círculos para ganharem altura e planarem pelas queimadas do Complexo da Canastra em busca de numeras carcaças de animais mortos pelo fogo. Fogo este que havia calcinado milhares de hectares por toda a região.
Esta época é uma festa para todos os carniceiros da região: Urubus, caracarás, urubu-rei, cabeças secas entre outros menores.

A trilha deste ponto para frente é um convite a maiores velocidades, tirando uns “arrepios” de pedra o resto é uma reta só. A trilha está a 1350m de altura.
Tinha ficado muito para trás. Montei no ATV e acelerei com gosto. É uma sensação extraordinária, cruzar aqueles campos como se estivéssemos em um tapete voador. O barulho do vento no capacete não nos deixa ouvir o barulho do motor. O sentimento é de flutuar pelo chapadão da Babilônia, sem ninguém pela frente e nada ficando para trás.
Incrível este pedaço de trilha, uns 20Km, temos pressa de correr, mas não queremos chegar. É como nossa própria vida, temos ânsia de viver, mas não queremos nunca chegar ao destino de nossa existência.

O ATV correndo levantava um canudo de poeira por onde passava. O chão ressequido, se transformara em uma camada funda de terra pulverizada, que se erguia aos céus com a passagem dos veículos.
Não sei quanto tempo corri. Não me lembro quanto agradeci por estar ali naquele momento usufruindo aquela aventura de viver tão intensamente, o chão passava por mim como uma esteira marrom com curvas suaves e ondulações, que as vezes faziam o ATV dar pequenos pulos como se estivesse em câmara lenta.
Sabia que na encruzilhada próxima, a 20 Km, teria que pegar a esquerda, pois se continuasse à direita sairia na descida do Rolador.

Quando vi, bem ao longe nuvens de poeira subiam aos céus. Indício, os amigos estavam próximos!
Isso me tirou dos sonhos e aqueceu meu coração, é bom sentir-se sozinho nestes fins de mundo por um certo tempo, depois…é melhor ainda ver os amigos na trilha.
Sabia que teria que pegar a esquerda na próxima encruzilhada, para ir para a Casca D`Anta e a Igrejinha da Cascata. Esta é uma bifurcação famosa no Chapadão da Babilônia. Se tomarmos a trilha da direita sairíamos na descida do Rolador.

No íngreme Grotão da Porteira, uns 5Km após a bifurcação, encontrei os jipes descendo pela ribanceira, é um lugar de se tomar cuidado, pois a trilha pode oferecer risco de acidente. Nos dias de chuvas fortes, corre um verdadeiro rio no fundo desta gruta, dá até medo. Já passei aí com um temporal. Até acredito em tempos passados, havia um riacho perene passando por esse vale, devido ao grau de erosão que existe.
Depois de 15Km, mais ou menos, chegamos na Igrejinha da Canastra.

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Estamos na Igrejinha da Canastra. Eu, Marcelo e outro companheiro. As nossas costas a imponente Serra da Canastra, nascedouro do grande Rio São Francisco, não se veem o Casca D`Anta, neste ângulo da fotografia, ela está à esquerda. Bem ao longe a direita São José do Barreiro. Este lugar é muito representativo para todos trilheiros, poderia ser considerado o Centro Geográfico da região.

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Eu e doutor com sua filhinha. Uma vista bucólica da paisagem. Repito, este lugar é um marco para todos nestas cercanias. Agora até bar existe aí, esta fotografia eu tirei estando na entrada do referido estabelecimento. Esses bares, esses confortos, esse mundo de gente a trafegar por essas trilhas, segundo o GeGe é o fim das aventuras por esses lugares. Temos que procurar outros, mais distantes, agressivos, selvagens e com novos desafios.
As pessoas da região chamam esta parte da Igrejinha de Morro do Carvão.

Saímos da Igrejinha e uma parte da caravana foi para São José do Barreiro, outra maior, foi rever a cachoeira da Casca D`Anta, por sinal é sempre um belo e inesquecível passeio.

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Esta fotografia foi-me enviada pelo amigo Rogério. Por sinal uma inesquecível recordação de todo o grupo na Cachoeira, desta área de estacionamento até a queda de água tem uma bela caminhada morro acima.

Depois partimos para São José do Barreiro, 9Km de curvas, pontes, mata-burros precários e muita poeira. Abastecemos as máquinas e fomos esperar os companheiros no bar do Zé do Mazico. Ponto de referência da pequena cidade.

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Este é o famoso Ipê Amarelo, que pelo decreto do ex-presidente Jânio Quadros é a flor símbolo do Brasil.
Foi uma luta de artistas a escolha, pois as flores de nossas árvores são belíssimas: O ipê branco, o ipê roxo (a maior árvore entre os ipês) chamada na região do Pantanal de Piúva, a paineira, jacarandá e centenas de outras.
As fotografias simbolizam nossa chegada em São José do Barreiro e nossa saída no dia seguinte. Esta árvore estava bem na entrada do querido povoado, na rua do famoso bar do Mazico.

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Esta é a Pousada Limeira, onde ficamos. Lugar de sonho. Ficam a uns 12 km depois de São José do Barreiro e antes de Vargem Bonita. Ao fundo a esquerda a Serra da Canastra. O Rio São Francisco passa no fundo da pousada no sopé da montanha.

Antes da chegada à pousada os companheiros pararam no Bar do Mazico, foi uma festa de cerveja gelada, linguiça frita e queijo mineiro da Canastra. Uma confraternização importante pela beleza da trilha feita. A alegria era geral.

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Esta é uma fotografia de satélite muito importante mostrando a Serra da Canastra no ponto onde o Rio São Francisco despenca do alto da serra formando a cachoeira da Casca D`Anta, o rio descendo ao lado da serra e o traçado quase imperceptível da estradinha que corre paralela ao rio até São José do Barreiro.
No alto da Canastra nota-se ao lado do rio (escuro), uma trilha branca, que é o caminho para se chegar na parte alta da Cachoeira. Esta estradinha aparece na foto pois e recoberta de cristais de quartzo branco, o que deve ter refletido a luz no momento da fotografia do satélite que está a mais de 80Km de distância.

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Esta belíssima foto mostra o limite a Este da Serra da Canastra. O vilarejo de São José do Barreiro, a estrada e o rio São Francisco correndo paralelos ao longo do contraforte da Canastra. Temos ainda muito para ver e conhecer neste rico e maravilhoso Brasil.

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Vista, estando no início da subida do Rolador, da praça principal de São José do Barreiro. Quanta solidão, quanta pureza nesses rincões. Já cheguei as 22:00h nesta cidade, com destino ao Sr. Soares, não havia viva alma nas ruas. A cidade mais parecia um lugar fantasma. Contudo, no outro dia, lá no bar do Mazico, todo mundo havia nos visto chegar. É como se em cada fresta tivesse um olho, cada janela um ouvido-identificador. As pessoas nestes rincões, se unem, formam como se fossem uma colmeia humana, onde todos se conhecem, sabem seus hábitos, seus amores, suas traições e suas qualidades. Sendo sempre valorizadas por elas.

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Estas fotos foram tiradas atravessando o Rio São Francisco, praticamente atrás da Pousada do Wayne. Primeiro passou o ATV, depois eu passei com a L-200. Nesse dia eu e Carolina fizemos a trilha com a caminhonete L-200.

Protesto: nestas perdidas linhas, que acredito que ninguém vá lê-las, quero protestar contra a transposição do Rio São Francisco, levar 1/3 de suas águas para o nordeste. É o maior absurdo que já vi, um país, carente, corrupto, iniciar gastando 4,4 bilhões para mudar uma bacia hidrográfica como a do São Francisco. Um caminho que a natureza demorou milhões de anos para traçar, ser mudado, com bombas elevatórias (300m), máquinas e dinamites para rasgar a terra. Seria as pirâmides do Egito, feitas pelo sertanejo Lula para irrigar, o xiquexique, o mandacaru e os ricos que puderem comprar conjuntos de irrigação.

Nota: Hoje 18/02/2016, Lula e Dilma, já gastaram 25 bilhões e o Rio São Francisco, não foi transposto. Incrível, a curta visão e o  roubo constante de nossos governantes.

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Aí está uma vista nua e grua da Casca D´Anta, no período da seca. É maravilhosa por todos os ângulos que possamos observá-la, mesmo com pouca água, mesmo do avião, ela tem uma particularidade única por todos estes Sertões e Veredas. Cai de 180m de altura. Na transposição do rio São Francisco, que os loucos pretendem, é como se tivéssemos que fazer o rio, 2.000Km a frente, voltar no ponto mais alto do Complexo da Canastra. É loucura, insensatez.

Segundo dia de Trilhas: 12-08-2005. No outro dia, sábado, saímos pela manhã com destino à cachoeira do Quilombo. Uma etapa maravilhosa de nossa viagem.
Não é fácil reunir todo pessoal para a saída, ainda mais que o Pedrão com sua simpática equipe iria conosco.
Não demorou muito, saímos. O início da trilha é pela subida do Rolador, ao lado da Pousada do Sr. Soares, Pousada do Boqueirão. É de uma hospitalidade a toda prova o Sr. Soares e a esposa.

O Marcelão, profundo conhecedor da Canastra saiu correndo na frente. Para variar ele passou direto na subida da encosta, a entrada da trilha. Logo percebeu e voltou, mas ele …sabe-se lá até onde foi.
No início, a trilha, é complicada, passa-se em muitas bifurcações, dentro de currais e assim por uns bons 15km. Somente conhecendo muito bem é possível fazer esse trajeto. Hoje existe um caminho novo, que sai na frente da Pousada do Limoeira.

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Depois de uns 15Km de trilhas, onde a velocidade média dos jipes era menos de 10Km, tomei a dianteira e nesta subida parei para fotografar os companheiros que vinham trilhando com calma e categoria. Por todos lugares, os sinais das queimadas eram evidentes.

Espera e espera, mas, infelizmente nenhum sinal dos retardatários. Espera, que espera e nada! Todos com o olhar no horizonte em busca de uma nuvem de poeira. Horizontes distantes, longas estiradas, solidão e ausência.

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Começamos a ficar, todos, preocupados com a dupla. Que não aparecia. Dr. José cogitou em voltar, achando que haviam quebrado ou…sofrido algum acidente.

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Todas conduções e motos chegaram, menos os dois amigos que não apareciam. Até que depois de 40 minutos de espera, vimos a poeira levantado no horizonte. Foi com alívio que os vimos chegar. O Marcelo disse ter parado por necessidade biológica. Além claro, de umas erradas nas bifurcações da trilha, o que é normal.

Temos uma regra, o penúltimo da caravana sempre tem que está vendo o último. Isso é, o primeiro vendo o segundo, e assim por diante, mas quando há uma mistura de motos com jipes, não é fácil, pois as velocidades são muito díspares, o que torna quase inviável esse procedimento. Aí, acontecem entreveros que não deixam de serem desagradáveis.

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Nestas áreas das queimadas havia uns animais mortos, que estavam sendo devorados pelas aves de rapinas já citadas. Mas a que mais nos chamou a atenção foram as curicacas, um tipo especial de cegonha, com o bico torto e de cor marrom escura, muito comum nestes grotões das veredas mineiras. Não consegui fotografar nenhuma delas, minha pequena câmara não tinha recurso suficiente.

Uma brisa suave nos refrescava nas alturas do Chapadão da Babilônia, e trazia um cheiro de queimada. Longe no horizonte pequenos pontos de fumaça mostravam que havia ainda fogo em touceiras e troncos maiores. São esses focos de queimadas lentos que consomem toda a matéria orgânica do terreno, tornando-o cada dia mais ácido e estéril.
Nos tempos passados os antigos somente punham fogo quando a macega estava alta, e havia chovido pelo menos alguns dias antes. Aí o fogo forma grande fachos e labaredas que rapidamente consomem a maça da macega, não havendo tempo para danificar as árvores, ou invadir a umidade das veredas.
Hoje o fogo acontece no auge das secas, aí vai tudo sendo calcinado lentamente, incluindo as veredas, que antes úmidas hoje, secas com suas nascentes secando pelo clima cada dia com menor grau de chuvas em toda região.

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Terra calcinada. Onde o capim ainda tira forças para uma rebrota; mitigando a fome do gado magro, mas acostumado aos rigores das sucessivas secas no alto deste espigão infindável da Babilônia. A macega mais alta é a que pega fogo e dela se espera o milagre da rebrota. O gado pasta horas pela manhã, onde o orvalho da noite torna este capim pouco mais palatável. O capim vem com as cinzas, provavelmente com suprimento de sais minerais, pois em algumas regiões, em tempos idos, era nesta época que o gado solteiro ficava mais gordo e forte. As novilhas para reprodução e os machos para a venda aos invernistas. Não resta dúvida, é o grande milagre da vida, que o homem está colocando em risco.
Gostaria de ficar mais tempo, sentado no ATV, vendo esse rústico gado mestiço, super adaptado a esse rigor, placidamente catando aqui e acolá os brotos de capim, que podem crescer em uma noite de orvalho mais de 6cm. Assim a rotina adaptada deste gado heroico é caminhar em um vai-e-vem ao longo do chapadão em busca das quase invisíveis brotas da vida.

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Estava já longe com esses pensamentos. Já “vazando” pela trilha. Olhei para trás para ver o comboio, mas tinha um grupo ao redor do jipe do Pedrão. Voltei. O jipe estava com um problema, superaquecimento, teria que voltar. Todos se prontificaram voltar também, mais, ele não aceitou, o irmão e o cunhado se prontificaram em rebocá-lo.

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Assim foi. O comboio se organizou para a volta. E partiu! Ficamos olhando, eles se afastando lentamente, não sei mais ficamos um pouco tristes com o fato. Montamos em nossas máquinas para continuar a trilha. Alguma coisa aborrecia, em uma aventura desta não é prazeroso deixar companheiros voltarem… “Os espíritos da consciência reclamam, mas a caravana tem que prosseguir”.

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A trilha deste ponto para frente se complica bem. Ela é longa e cheia de dificuldades. Pelo mapa, podemos verificar que ela faz uma grande parábola no alto do Chapadão da Babilônia, contornando seus contrafortes, seus vales e seus grotões. Existem lugares como este da fotografia que a paisagem é única em suas características. Parece que nos milhões de anos geológicos, que se passaram, a mãe natureza brincou de triturar, com forças gigantescas, estas pedras, e depois amontoá-las formando paredões abruptos, mesetas longas inclinadas, grotões e lindas veredas por onde límpidas águas das nascentes alimentam uma vida extraordinária que já foi exuberante, antes da interferência predadora dos homens.

Assim são quase todas as trilhas, mas esta é particularmente o exemplo deste fato.
Meditando bem! Hoje, se eu voltasse neste lugar, gostaria de fazer diferente. Andar mais devagar, parar mais, sem preocupações com a chegada. Sentar mais nas pedras e estudar os horizontes. Pegar algumas pedras na mão e tentar entender sua história. Procurar os sinais de vida, que fosse o excremento de um lobo guará, ou o rastro de um tatu. Olhar para o céu em busca de aves de rapina, e ver onde elas pousam para ver o que pereceu na queimada. Aproximar-me do gado e ver realmente o que estão comendo, enfim, na próxima ida à Canastra, levarei binóculos, lentes, deixarei o relógio e procurarei estudar os grotões e as veredas, em busca de fatos para enriquecer e completar o laser.

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Aí está a situação, uma barreira de pedras amontoadas quase harmonicamente, onde o TR4 sobe com categoria a difícil rampa. Um companheiro está orientando o Rogério na passagem pela erosão, que estava feia.

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É a visão símbolo das trilhas. Rochas areníticas, metamorfoseadas, por pressão de milhões de toneladas de terra e silte, hoje expostas pela ação de milênios às forças de erosão. É uma região ainda em evolução, somente a ação do homem determinará seu futuro: Um deserto ou uma pradaria sedimentar produtiva. O negro das pedras não é a hematita mais efeito das inúmeras queimadas de séculos de ação do homem. O período das chuvas, que são abundantes, estas pedras cobrem-se de vegetação rasteira e musgos, que ao serem queimados deixam-nas com a cor escura.

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Tempos passados. Uma divisória de pastagens feitas de pedras por mãos escravas, quando a região era muito rica. Achava-se diamante nos seus riachos e principalmente no pé das Serras: Canastra, Babilônia, Serra Preta, Sete Voltas e milhares de outras do Espigão Central que vai do sul de Minas Gerais até a Bahia.
Nesta época o gado era vendido a preço de ouro. Compensavam os escravos comprados, a lutas de bandos de jagunços, era a luta pelo brilho dos diamantes. Era a luta e a vitória do mais forte, do mais armado e do mais protegido…como sempre!

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Chegamos depois de mais de 32Km de trilha à cachoeira do Quilombo, um lugar particularmente isolado e bonito. O rio Quilombo forma neste ponto uma vereda de grandes árvores, formando uma mata galeria que acompanha o curso d`água por muitos quilômetros, é lindo de ver e sentir o ambiente. O ruído branco das águas em cascatas descendo a serra se mistura com o solitário canto de um sabiá-laranjeira chamando sua companheira. Não consegui vê-lo, no alto da árvore mas sabia que ele estava lá, pois seu canto cadenciado e ininterrupto ecoava por todo o vale do Quilombo.

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As aguas limpas do rio expunha suas grandes pedras no fundo. A correnteza era bem forte, fiquei um pouco ressabiado, contudo, lá fui eu. O ATV se comportou muito bem, pulando as pedras, no meio do rio, fui levado alguns metros pela correnteza. Firmei a mão, o motor respondeu muito bem, e a travessia foi feliz.

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Realmente no meio do curso da água dá um pouco de medo, mas os valentes ATVs, passam muito bem por estas situações. Eu não poderia imaginar, que depois de mais de 10Km rio abaixo, ele com muito mais volume de água, tivemos que atravessá-lo novamente.

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Esta é uma outra visão da Cachoeira do Quilombo.

Estamos atravessando o Rio Quilombo, no momento o ATV do Elias está cortando as águas. O lugar é muito lindo, o ruído das águas encanta. Os companheiros mais jovens subiram até a cachoeira, que em outra descrição de viagens eu mostrei.
Aí tomamos um lanche de primeira. Depois aproveitei uma sombra na areia branca para tirar um cochilo.
Esses montes de areia, silte e pedriscos, que existem às margens dos rios de toda a região do Espinhaço, é fruto de séculos da atividade mineradora (garimpeira) dessas regiões. Em todas essas serras milhares de toneladas de ouro e pedras preciosas saíram.
Os garimpeiros com pouco lucraram e ainda poucos ganham, o maior lucro sempre foi e será dos atravessadores.

As velhas trilhas, abandonadas, esquecidas, Espinhaço a fora é fruto do intenso movimento de carros-de-bois, mulas e cavalos que por séculos cruzaram seus espaços vazios para atingirem povoados distantes, levando sal, farinha, óleo de mamona ou mesmo de baleia e ferramentas, trazendo carne de sol, arroz, farinha e escondido nas bruacas ouro e pedras preciosas.
As rodas de ferro destes carros-de-boi, pesados pela carga, iam moendo o solo, traçando trilhas, os velhos carreiros conheciam a região como a palma de suas calejadas mãos, pois desde mocinhos já eram auxiliares dos carreiros, somente depois de anos de acompanhamento podiam pegar a vara-de-ferrão nas mãos e conduzir as juntas de bois, por estes grotões perigosos e traiçoeiros. Guimarães Rosa, narra casos em que bois e carros rolaram e se espatifaram por esses desfiladeiros.
Esses carros-de-bois eram “cantadores” os mancais de madeira com madeira, Ipê & Imbuía, ao atritarem produziam um som agudo e penetrante, que a mais de 10Km se escutava uma caravana de carros-de-bois passando. Era a alegria dos povoados, era a chegada. Era a ligação dos sertões com a civilização, a fartura, a prenda pedida a ferramenta esperada.
Durante meu sono na areia do Quilombo, pensei em todos esses fatos históricos de nosso passado, nessa imensa região, das Minas Gerais.
Chegou a hora. Vamos embora para Delfinópolis.

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Nesta primeira fotografia estou na frente do sítio de conhecidos e amigos, os Fonseca, um lugar de sonho perdido no sertão do Complexo da Canastra. Neste lugar ele tem feito vinho de ótima qualidade. Esta propriedade está a poucos quilômetros da Cachoeira do Quilombo.

Estas fotos do satélite mostram imagens importantes, para as pessoas que gostam de se situar muito bem no espaço.

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O Rio Quilombo e sua belíssima cachoeira. Ficam nos contrafortes Sul do Imenso Chapadão da Babilônia. São lugares de sonhos, pois as paisagens exóticas e belas se sucedem de forma constante por todas estas regiões.

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Esta região onde está a Pousada do Eninho, é um dos lugares mais bonitos do Complexo da Canastra. Temos ao norte da pousada a famosa subida do Facão. A estrada que cruza o vão da Babilônia, serpenteando por entre as furnas e escarpas abruptas. Deste ponto para frente tem início o Vale do Céu.

VIAGEM. À SERRA DA CANASTRA: 13-11-2010.

O destino São Roque de Minas.

Ficamos no Hotel CHAPADÃO DA CANASTRA.

Telefones: (37) 3433 1267; (37) 3433 1440

Bem ao longe, avistei os abruptos paredões da Serra da Canastra, o horizonte se descortinou à minha frente, e a nuvem negra que me acompanhava, por todos estes anos, se derreteu em chuvas de esperança.

As Trilhas. Fazer trilhas é conhecer lugares, é abrir espaços, é se emocionar com o simples e estar em lugar nenhum. As trilhas não têm começo e não têm fim. “Não nos importa o começo, não nos preocupa o fim, o que importa é o trajeto” (Guimarães Rosa).

Os antigos habitantes do Brasil antes de seu descobrimento, tinham numerosas trilhas importantes, os índios Tupinambás, os Tamoios, e os Guaranis, possuíam trilhas de caça. Mas sonhavam, claramente, com uma trilha imaginária e infinda, extraordinária, que os levariam para oeste, para o interior à fora, até os Andes, onde existiria uma montanha imensa de puro ouro.

Estes sonhos, entre outros, foram transmitidos aos Bandeirantes e Bandeiras, que em longas e penosas incursões pelas trilhas indígenas, conquistaram o Sertão brasileiro, romperam o Tratado das Tordesilhas, em busca do El Dourado e da Lagoa Verde repleta de Esmeraldas. Criando o Brasil que temos hoje.

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Assim começam as trilhas. Estou aí, sozinho, no ATV saindo de São Roque de Minas, para subir a Serra da Canastra. O vento carregava as nuvens velozmente, quando elas trombavam com a serra, subiam, condensavam, e se acumulavam, no espaço, em negros vórtices ameaçadores. É o efeito orográfico, formando células de grande instabilidade meteorológica, os cúmulos nimbos. Assim, os temporais se formavam.  Os relâmpagos cruzavam os céus em seus ziguezagues desconexos, o ar explodido criava sons, que percorriam o espaço 330m/s, estes inundavam todo o espaço, como bombas potentes explodindo, em ecos retumbantes, nas furnas da serraria.

O vento uivava pelas fendas de meu capacete, o quadricíclo dançava pela força dos ventos e pelas irregularidades erodidas da trilha. Pura emoção, doses maciças de adrenalina no sangue, desentupindo velhas veias e irrigando a mente. Emoção, aventura e prazer, de estar ali vivo, para presenciar tudo isto.

A esquerda da estrada está a entrada da trilha para o alto da serra, e a Portaria número 2 da Reserva. A chuva torrencial, formava uma cortina antes da serra, impedindo sua visualização, escondendo seus paredões abruptos. De onde estou até à serra são 9km.

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A primeira fotografia mostra os contrafortes da serra, em um vale que contorna a reserva, em direção a noroeste. Na segunda fotografia uma visão ao longe de São Roque Minas.

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Aí estou na portaria do Parque Nacional da Serra da Canastra. Lugar que por 15 anos passei com meu quadricíclo, sem nenhum problema. Mas agora não pude entrar, pois o governo baixou uma norma, que somente veículos com placa, licença, podem entrar no Parque. Como o meu é considerado um trator, não pode emplacar e não posso entrar. Coisas do Brasil, para pegarem mais impostos, pois todos os veículos fora de estrada que por lá passavam, não têm mesmo placa nem licenciamento, por esse motivo, todos têm que buscar novas trilhas. E, não podem conhecer a Serra da Canastra, assim como a nascente do grande Rio São Francisco. De recordação ficam as fotografias, dos tempos passados.

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Triste por não poder entrar no Parque, iniciei a descida da serra. O temporal havia passado, nuvens carregadas ainda atapetava o céu com seus baixos estrados cúmulos congestos.

O vento de Sudeste sobrava em rajadas intermitentes, como tomando fôlego para novas investidas. Alguns automóveis sem tração e motoristas sem experiência claudicando e sofrendo, tentavam subir a serra. Parado fiquei vendo a trilha ao longe, serpenteando, pelas encostas abruptas da serra. Lembrei com muita clareza, a primeira vez que desci esta encosta íngreme e tortuosa da Serra, em direção a São Roque de Minas.

Cenas do passado, que não se apagam nunca de nossa mente.

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Voltei para São Roque, em busca de novas trilhas. Interessante que na cidade 9Km ao pé da Serra da Canastra, a chuva ainda não havia chegado. Com isso o efeito orográfico exercido pela serra ficou mais que evidente. A natureza nos dá lições valiosas, mas o homem as têm ignorado, com isso a Terra, torna cada dia mais triste e agressiva para com todos.

Nova trilha, abastecimento das máquinas.

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A primeira fotografia é do Marcelo. Na segunda fotografia, estamos no posto de combustível, abastecendo para a primeira trilha, Jun, Du Mendes e Sergio Lima. Nessa hora estamos limpos e com uma certa ansiosidade, pois iríamos para uma trilha que ainda não conhecíamos.

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Uma segunda fotografia para confirmar a equipe.

Uma nova trilha, saindo em direção norte da cidade. O início da estrada para se atingir a trilha, é a estrada que segue em direção a Bambuí.

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São indescritíveis os cenários da região da Canastra. Este é o Vale do Rio do Peixe, um riacho de límpidas águas antes de passar pela cidade de São Roque. Parei na ponte do rio e fiquei impressionado, com os cardumes de curimbatás que subiam a esperta correnteza do rio. Estamos entrando na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O cardume, oferecia uma agitação frenética, espalhando águas em saltos de exibições às fêmeas. Como sempre falo, é preciso conhecer a natureza, entende-la, para apreciarmos o pulsar da vida nela existente. Naquele riacho modesto, a reprodução se manifestava exuberante, magnífica.

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Subi quilômetros de encostas íngremes, até consegui chegar mais perto, que a trilha permitia, da nascente do Rio do Peixe, aquele que me referi, passando por São Roque. Esperei algum tempo para ver se passava algum peixe, mas nada! Passei um bom tempo, ouvindo os sons da natureza, com o fundo do ruído branco da cachoeira, o melodioso canto de um sabiá laranjeira, que se esforçava ao máximo na melodia, chamando uma fêmea para seu ninho.

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Depois de uns 4km cheguei a um atoleiro, onde um carro estava esperando o momento para passar. O quadricíclo passou sem problemas, como mostra o rastro no barro. No fundo destes vales, por onde correm os riachos e rios, que abastecem o grande São Francisco, forma-se uma terra de aluvião, rica em argila, quando chove, é o terror dos motoqueiros entre outros, pois o terreno fica liso como um sabão. Assisti muitos tombos de companheiros nessas circunstâncias.

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Finalmente, achei a ponte de Ferro, tão falada pela dona do hotel. Um lugar muito marcante, primeiro pela qualidade da ponte, o que não é comum por aquelas paragens, e segundo, pela fauna e flora da região. Não consegui fotografar nada, mas ouvi, muitos pássaros: gralhas, maritacas; ao longe um inhambu chororó cantou triste pelas furnas da mata galeria, papagaios passaram barulhentos e sempre aos pares, canários da terra aos bandos, um casal quero-quero travavam uma briga feroz com um gavião caracará, que provavelmente queria jantar seus filhotes. Sentado no ATV, passei tempos indefinidos ouvindo e sentindo toda a exuberância e a beleza da mãe natureza, neste recanto remoto, e esquecido, do imenso Complexo da Canastra.

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Fiquei olhando a mansidão da água correndo, pensando em seu longo e atribulado caminhar até o mar, no distante nordeste do Brasil, a mais de 2.500Km de distância. A água do rio é escura, pela decomposição das folhas da exuberante mata galeria, que o acompanha o curso da água, pelos meandros da serra à fora. A montante desta ponte de ferro, tem uma bonita corredeira, a jusante, a água corria mansa, como descansando do agito por onde havia passado.

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Esta é a maravilhosa visão da corredeira a montante da Ponte de Ferro. Realmente ela atesta o que eu disse anteriormente, uma exuberante mata galeria, um sinuoso curso de águas que acaba sempre em curvas nas encostas de grandes pedras. As pedras da montanha formam os limites de seu leito. Se não fosse as inúmeras pedras da Serra os rios, da região, não teriam tantos meandros e corredeiras. O agitar das águas a oxigena, atraindo os peixes para a piracema. É o pulsar da vida, que se renova.

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Solidão! Seria a imagem deste quadricíclo, Bayou, sobre a Ponte de Ferro? Companheiro, de 15 anos de trilhas, nunca, nunca me deixou “na mão”. Solidão seria, se estivesse eu na ponte, sem meu inestimável quadriciclo. A fotografia seria de um Companheiro, de inúmeras trilhas, inúmeros lugares destes rincões distantes do Brasil: Transpantaneira, Esquinão, Trilha do Ouro, Serra do Cipó, Praia do Castelo até o Uruguai, Vale do Jequitinhonha, Chapada Dos Guimarães e tantos outros. Não importa, guardarei para sempre esta imagem.

Eu estava sozinho, ouvindo a natureza, muitas trilhas pela frente, somente com o GPS eu sabia onde estava naquele momento. Momentos inesquecíveis de nossa efêmera existência, nestes perdidos grotões, onde ainda ecoam as vozes da natureza, sem se misturarem aos ruídos da civilização.

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O quadricíclo, não queria voltar. Senti claramente, que queríamos ir para frente. Seguir a trilha. A lama acumulava nas baixadas, a chuva dava tréguas, mas logo voltava mansa, mas persistente, é o ideal para trilhar sem destino, cada rampa que eu subia, um novo vale se descortinava à frente, bifurcações numerosas, a escolha era aleatória, mas sempre buscando as fraldas da Serra da Canastra. Caminhos sem fim! Somente dando um “trak bak” no GPS para voltarmos ao ponto de partida, senão era ficar perdido na serra como tantos amigos já ficaram. Havia percorrido 61Km de trilhas, até o momento.

Quilômetros à frente uma visão dos negros abutres, à espreita de um moribundo ou já um cadáver, pronto a ser despedaçado e comido.

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É um quadro surrealista na natureza. Devido à chuva, os carniceiros não se moviam, nos céus, estavam estáticos vigiando um tamanduá morto, dentro de uma furna. O pobre animal morto, com certeza havia sofrido algum atropelamento e se arrastando para o buraco, onde morreu. Ainda não havia mau cheiro. Incrível a natureza, a morte à espreita, a natureza estática, a vida e morte se sucedem. Estes são os contrastes da existência!

Este é um lugar muito marcante para mim e Any por ser muito bonito, termos passados uma experiência, de tensão e medo nas margens do rio. Quando chegamos a este lugar uma cobra, acredito ser uma jararaca, atravessou a frente do ATV, deu uma parada, se prontificou para o bote, a Any quis fotografar, pulou no chão, a poucos metros da peçonhenta cabra. Ela se preparou, erguendo 1/3 do corpo, e com a bífida e peçonhenta língua procurou a presa. Gritei, cuidado. Cuidado! Com movimentos rapidíssimos, ela se dirigiu para o banco do rio, e sumiu como por encanto. A fotógrafa, ficou tempo sondando a peçonhenta víbora, com todo cuidado, mas, não teve jeito, ela a nossa frente sumiu mesmo. A astúcia do animal, seu mimetismo, com a natureza, vez fez passar de lado ir seguir caminho.

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Depois dos 70Km, minha trilha terminou neste imenso muro de pedra. Um muro de pedras encaixadas, colocadas criteriosamente umas sobre as outras, sem argamassa, somente no encaixe, e olhe bem este murro tem no mínimo 200 anos, foi feito pelos escravos, no século retrasado, é incrível a engenhosidade do homem. Havia muitas árvores, para fazerem uma cerca, uma paliçada, será que partiram para a colocação dificílima das pedras sobre pedras, para preservar a mata?

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A seta mostra o capricho dos antanho construtores do muro, ele termina praticamente dentro da água, com uma base muito sólida, de tal maneira que passado estes séculos e décadas, ele (o muro) não sofreu nenhuma erosão. Está impávido em sua postura pétrea.

A paisagem do fim desta trilha é indescritível, árvores de lei centenárias margeiam o rio, águas límpidas, por onde cardumes de lambaris como sombras coloridas navegam, e as vezes ficam estáticos na suave correnteza, é a harmonia da natureza preservada.

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Pedras sobre pedras. Imagino, há mais de séculos, homens colhendo estas pedras pelos arredores da serra, colocando-as em carros de bois, descarregando-as em lugares estratégicos. Então, os mestres as escolhiam, com perspicácia para que coubessem equilibradas nos lugares certos. E aí permaneceram estáticas, firmes, dividindo pastagens e propriedades por todos estes anos. Estáticas no tempo, firmes para sempre, até que uma máquina, um grande trator as derrubem abrindo campos, para pastagens, para sojas e para poder ajudar os proprietários a sobreviverem, nesta selva que é nossa vida atualmente.

Na região da Canastra posso calcular existir muito mais de 1.000Km de muros de pedras como este, que eu conheço. Contudo existem, Currais de Pedra, centenas de outros, e outros Currais de Pedra, por toda a região. Isto tudo foi construído por escravos, e os proprietários eram ricos pelos diamantes tirados de toda a região do Espinhaço da Minas Gerais. De Tiradentes, Ouro Preto até Diamantina no Vale do Jequitinhonha.

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“Estou em cima do Muro”, não no sentido figurado, mas na exata expressão. Pode-se observar a altura que eram essas construções. Heróis de tempos passados, que o presente não se lembra mais!

No outro dia encontrei com os amigos em uma outra trilha.

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A trilha estava uma beleza neste ponto, paramos para vermos a cachoeira do Serradão.

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São as trilhas da Canastra, e saibam que nós, assim como os companheiros, nunca havíamos percorrido esta trilha. Creio que partirei “desta” sem conhecer todas as trilhas da imensa região da Reserva da Canastra. 15 anos frequentando

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Finalmente! Bem ao longe, despencando da serra, a cachoeira de Cerradão, um cenário maravilhoso. Inesquecível. Vendo ao longe, está maravilhosa queda d`água, podemos sentir a grandeza dos espaços, a imensidão dos horizontes, e recuperar no coração a nossa existência, tão efêmera. A quantos milhares de anos está água faz a erosão da serra, cavando um leito na rocha, como uma cicatriz de tempos imemoráveis.

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Correndo trilhas, chegamos mais perto. Que magnífica cena! Agora podemos ver as rochas expostas. São paredões abruptos de rochas metamórficas areníticas, fendidas pelo tempo, pelas intempéries que passaram, nestes 600 milhões anos de sua formação. Estes desdobramentos do complexo da Canastra, provavelmente, ocorreram pelos movimentos tectônicos, ocorridos durante a migração da placa da América do Sul, ao se desgarrar da placa Africana, a 650 milhões de anos, segundo os geólogos.

Cachoeira do Cerradão, como descrever este véu de límpidas águas que enfeita a paisagem, como um traço, seguro e indiscutível da presença de Deus, nos confins da Terra.

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Andamos mais uns quilômetros na trilha, mas lá ao longe, a cachoeira do Cerradão, marcava sua presença absoluta no horizonte. Todos queríamos eternizar aquela maravilhosa imagem. Estou eu e depois o Marcelo fazendo pose. Para que estes momentos se cristalizem cada vez mais em nossa mente.

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Mudança de rumo. Voltamos correndo pela trilha à fora. Com a chuva que caia mansa, tivemos oportunidade, e presenciamos algumas derrapagens cinematográficas, seguidas de modestos tombos. Como eu disse, um pouco de chuva, e a terra, com piçarra, vira um sabão, de lisa.

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A trilha percorria a margem esquerda do Rio do Peixe. Paramos em um lugar, que segundo os campeões seria fácil de ser passado, contudo, acharam melhor não enfrentar. Olharam para lá e para cá, e resolveram fazer um teste.

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Foi quando na encosta do rio, o Marcelo achou de subir esse barranco. Aí começou o parque de diversão dos meninos. Na primeira tentativa não foi, mais adrenalina em todos. Trilheiros gosta de desafio.

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Não consegui captar o exato momento que este ficou “nervosa”, não subiu, caiu e depois jogou com raiva a moto no chão! Bem, foi um belo momento para encerrarmos o dia e as trilhas.

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Com esforço e com incentivo da plateia, levanta a máquina, mas o esforço é muito, ela teima em cair de novo, é a luta do trilheiro macho!

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Depois todos conquistaram a rampa, subiram, as vezes claudicantes, as vezes diretos, mas ficaram contentes. E com isso encerramos nossa aventura na região de São Roque de Minas.